Falar
das virtudes de quem quer que seja, verdadeiras ou não, sempre foi mais fácil. Uma
espécie de paradoxo do cotidiano, que ser sincero é ofensa! Dizer o que todo
mundo quer ouvir é fácil e doce, ventila poesia, ainda que não seja genuíno! O
problema maior é que quando os canalhas morrem, se redimem e viram lendas, não
bandidos! “O mundo estaria salvo se os
homens de bem tivessem a mesma ousadia dos canalhas”, afirmou Nelson
Rodrigues.
A corrupção no seu mais amplo e
profundo sentido manifesta-se como endemia nacional! Percebo a necessidade de uma reflexão maior e
mais séria sobre esta questão. A desonestidade pessoal e a imoralidade
política, que permeia todos os setores da sociedade. Que no Brasil, parece
cultural! Sem pieguice ou aquele típico hipócrita “politicamente correto”, como
diz Pondé.
Discutir e refletir sobre este mal que permeia
as relações e instituições, requer acima de tudo coragem e atitude,
principalmente diante da nossa frágil democracia. De liberdades vigiadas e
repressões silenciosas, que colocam a liberdade de expressão em xeque. Principalmente
diante desta falsa e hipócrita moral religiosa, que ser desonesto para muita
gente é cultural. “A corrupção não é uma invenção
brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa”, disse o grande Jô
Soares.
Chegamos num nível de mentalidade tão inaceitável, que para muitos, a
corrupção, a trapaça tem se tornado algo “aceitável” e “normal”!
Indiscutivelmente, uma vergonhosa inversão de valores, numa espécie de cultura
nacional.
Quantas
pessoas afirmam de forma explícita e categórica que “todo político é ladrão”? E
desde quando for ladrão é normal e aceitável? Às vezes tenho a sensação, que há
até certo “conformismo” ou “aceitação” popular na afirmação. Será mesmo? O que
será pior e mais vergonhoso, a corrupção ou a impunidade? E aquela máxima
popular de “quem não é corrupto, quando
for eleito, tornar-se-á”! Precisamos rever alguns conceitos. Não podemos perpetuar
a ideia do errado, ser o certo! Ser “esperto”, “malandro” é muito diferente de
ser honesto. E ser corrupto é o mesmo que ser ordinário e desonesto.
Entendo
que em todos os segmentos da sociedade, possuem pessoas honestas e de conduta
íntegra e também, aquelas desprovidas de qualquer brio ou caráter. Pessoas
competentes e confiáveis, bem intencionadas, comprometidas e idealistas, bem como,
as incompetentes, de moral e conduta duvidosa, sórdidas. Seja político, jogador
de futebol, militar, professor, escritor, pastor, padre, bispo católico, bispo
evangélico, ateu, à toa, empreiteiro, empresário, banqueiro, funcionário da
Petrobrás, famoso ou anônimo, a corrupção é um desvio de caráter, crime covarde,
que não tem “cara” ou culpa; já o resultado, nota-se em cada analfabeto deste
país; na qualidade da educação; na insegurança da segurança pública, na
constrangedora e sempre duvidosa, saúde estatal e suas frágeis e patéticas
instituições.
A ideia deste artigo, fruto da
indignação – que é o que me move - e dos absurdos quase inacreditáveis deste
país, precisam ser vistos e entendidos, como muito além da crítica, da
provocação ou de uma “caça as bruxas”, como alguns “ofendidinhos” se sentirão.
Até porque, já dizia Rui Barbosa, “não se
deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem.”
E como são longevos!
Na verdade, um convite a uma reflexão
filosófica, moral e política um pouco mais aprofundada. Um despertar para algo
que nos parece, infelizmente, familiar e “natural”. Quem sabe, um despertar deste
estado de letargia, de cidadãos mais conscientes e críticos, mais intolerantes à
desonestidade, que precisam ter clareza e a certeza, que corrupção não é
exclusividade de classe política ou qualquer outra categoria profissional. Inerente
à condição de indivíduos involuídos e velhacos!
A corrupção se manifesta nas mais
singelas e “ingênuas” atitudes do nosso dia-a-dia. Como “oferecer” um trocado
ao policial como compensação por uma “gentileza”, por um “quebra-galho”. Aquele que suborna é tão corrupto e infame,
quanto o que aceita o suborno! O estúpido que vive dando carteirada por ser
autoridade – e ainda se apresenta com a clássica e ordinária pergunta: “você sabe com quem está falando”? Isso
quando o infeliz, não é um amigo do amigo da autoridade, nas raízes malditas e
vergonhosas do tão antigo e tão atual coronelismo!
Pode até parecer cultural e legal, mas é imoral. Aquela “insignificante”
e ingênua cola na escola – que o delituoso de forma patética ainda ironicamente,
típico dos apodrecidos -, diz: “quem não cola, não sai da escola!” – não
é lindo? Para muita gente, isto é normal! É aí que está o problema. O que fura
a fila da cantina, do banco, do estádio, do cinema; que transgride as leis e
alguns princípios básicos da boa convivência. Que direta ou indiretamente sempre
prejudica alguém; o “jeitinho brasileiro”, como os recibos forjados por grandes
“profissionais imaculados” para enganar o Imposto de Renda na hora da
Declaração. Ou seja, estão todos no mesmo time de detestáveis, que arrebentam
com a Nação, comprometem o presente e ameaçam o já incerto futuro.
Barão
de Montesquieu afirmou, que “a corrupção
dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios.”
Portanto, de nada adianta ir para as ruas com cartazes e palavras de ordem criticando
a corrupção, os “mensaleiros”, o “petrolão”, por exemplo, se na primeira
oportunidade, o indivíduo tropeça e ignoram princípios, valores elementares e
básicos, mesmo sabendo da ilegalidade do seu ato. Ou seja, de nada valerá as
ferrenhas críticas à corrupção dos outros, se no “nosso” dia a dia,
sempre “estamos” tentando ludibriar ou passar alguém para trás. Ainda que seja,
enganar-se a si mesmo!
Desta forma, vejo a necessidade de
repensarmos algumas atitudes e reavaliarmos princípios éticos básicos. O Brasil
é um país gigantesco por natureza, povo
trabalhador por excelência, sofredor e vítima da famigerada prevaricação e a
incompetência de quem governa e de alguns eleitores. Otimistas e esperançosos por
uma grande transformação, que fará da cegueira, da parvoíce triunfante, o caminho alicerçado na esperança e em cidadãos
conscientes, críticos e intolerantes ao caos. Usufruindo daquilo que nos
aguarda num horizonte ainda incerto, que é o verdadeiro exercício do respeito
ao próximo, ao erário público, na construção da verdadeira cidadania. Que ainda
tem sido um direito distante, restrito e negado a muitos humildes e anônimos
brasileiros, que constroem o patrimônio dos “honoráveis bandidos”, convictos da
impunidade das leis e da miopia dos “deuses terrenos” desta republiqueta de
bananas. Chefiadas por uma quadrilha de gângster, de fazer inveja a qualquer
organização criminosa – Yardies, Yakuza,
Cosa Nostra - salvo raríssimas, raríssimas, quase imperceptíveis exceções!
Portanto, caros leitores, acredito ser a educação – doméstica, escolar -,
a arte, o debate de ideias, a leitura, a reflexão, seria o caminho mais
próximo, para repensarmos nossos valores e princípios, morais, éticos e
filosóficos. Na incansável luta pela transformação e a construção de uma sociedade
mais fraterna e honesta. Reconhecendo-nos dentro do processo histórico, no
qual, estamos todos inseridos e convictos de que somos nós, os únicos
responsáveis por nosso destino e por um mundo melhor, ou não.
Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de
Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela
Universidade Federal de Goiás, com Habilitação
em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário
Claretiano, Pós-Graduando em Docência do
Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico,
recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião
e crônicas nos jornais Diário da Manhã
e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e
críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto
livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e
crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”,
poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os
séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e 4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o
quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor
do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.