domingo, 13 de outubro de 2019

A GRANDE CONTRIBUIÇÃO CULTURAL AFRICANA NA FORMAÇÃO BRASILEIRA


O paradoxo entre o racismo e nossas raízes

        O notável historiador grego Heródoto, afirmou que “o Egito é uma dádiva do Nilo”. Em um mergulho histórico nessas águas férteis e abundante do mais extenso rio do mundo – 6.853 km – e margeado por uma rica biodiversidade, com grandes plantações de arroz, trigo, banana, palmeira, papiro, ébano, entre outras culturas, revelando-nos uma obra-prima, de “faraônicas” construções e reinos poderosos ao longo de todo seu caminho. A África revelou-se não só como o “berço da humanidade” e o provável início da Teoria Evolucionista, como também, um continente farto, civilizações monumentais e cultura marcante. Que resistiu ao tempo, às intempéries da natureza e a rudeza de lutas infindas e invasores.  
        Terra ardente e resistente como seu povo, que se fez em meio a desertos e oásis, savanas e florestas, mares e rios, sob a resistência e a égide dos guerreiros iorubás filhos de Ogum. Ergueram impérios poderosos, desenvolveram culturas e tradições milenares, inúmeras línguas e dialetos, revelando uma diversidade cultural e geográfica singular. Flora e fauna exuberantes, que resistiram a escaldantes secas e tempestades indomáveis, alicerçando um continente desconhecido por muitos, “mística, lendária e selvagem” – ignorância histórica - e por outros, admirada e usurpada.
        Uma África vasta em diversidades, como o ecossistema do Serengeti e sua migração anual de gnus, zebras e gazelas, além do imponente e majestoso monte Kilimanjaro, ambos na África Oriental; o Delta do Okavango em Botswana é o maior delta interno do mundo. Na África Austral, entre miragens e areias tórridas, o Kalahari é o segundo maior deserto africano e o Saara, o maior do continente e o mais abrasador do mundo; estendendo-se por mais de dez países, constituindo a subdivisão natural da África.
        Desde o despertar das primeiras civilizações no continente, os egípcios estabeleceram contatos com outros grandes povos e culturas, como gregos, romanos, macedônios, persas e tantos outros, impressionando a todos pela grandiosidade de seus monumentos e sua magnífica arquitetura, repleta de palácios, templos e pirâmides. A “África Branca” ou do Norte, mais tarde, entrará em contato com os árabes e a religião Islâmica.
         Ao sul do Saara, conhecida como “África Negra” ou Subsaariana, destacaram-se os Bantos e formações culturais próprias. Deslocando-se do oriente em direção ao sul da África, atualmente nas regiões da Nigéria e Camarões, atingindo o auge de seu expansionismo entre os séculos VIII ao X. Com características nômades, os Bantos espalharam-se pelo continente e não constituíram um grande império, misturando-se a outros povos e legando muito de sua cultura por toda África.  Como por exemplo, a língua que deu origem a mais de 1.000 dialetos e muitos deles ainda falados nos dias atuais.
        Destacou-se também a importância histórica e cultural dos povos de Angola, Mali, Congo, Benin, Togo e todas as suas contribuições dentro de um processo sincrético e latente na cultura brasileira. Ocorrendo um contato direto, a partir de fins do século XIV, quando europeus e africanos, intensificaram a atividade comercial escravocrata, além das fronteiras da África. Atividade que inclusive, já ocorria no continente, antes mesmo do contato direto com os portugueses e a sanha mercantilista.
         No século XIX a busca por novos mercados fornecedores de matéria-prima e consumidores, gerou uma disputa voraz para atender as necessidades do capitalismo industrial, intensificando-se a pilhagem na África e Ásia, fomentando a política imperialista e o discurso da “supremacia racial”. Criando abismos históricos, sociais, culturais, étnicos, internos e externos, abrindo feridas “incuráveis” como as fomentadas pelas fronteiras artificiais, paridas na irresponsável Conferência de Berlim (1884-1885). Ecoam pelos séculos, a rapinagem e a exploração, reforçando o racismo e a miséria de um continente paradoxalmente, rico. A mesma África de grandes vultos históricos, vencedores do Prêmio Nobel que lutaram incansavelmente contra a violação dos Direitos Humanos e a vergonhosa política do Apartheid (1948-1994), presenteando o mundo com Nelson Mandela, Desmond Tutu, Winnie Mandela, Zenzile Makeba, Albert Lutuli, Wangari Maathai, entre outras inúmeras e ilustres personalidades como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Carolina de Jesus.
          Portanto, o Imperialismo foi um processo com consequências catastróficas para Ásia e África, submetidos a ações ardilosas e violentas, apoiados por um discurso desde o século XVIII da “superioridade racial branca” e científica europeia, sobre os povos africanos e o darwinismo social.
         O grande legado cultural e toda sua importância étnica africana; a sabedoria popular dos grandes guerreiros e chefes tribais; os anciãos e seu papel na preservação do patrimônio e das tradições culturais milenares nas comunidades; a força e a importância dos laços familiares e com a mãe-terra. Cultura transmitida oralmente e em todos os lugares; a importância das lendas e as tradições na construção da história dos povos da África; o iorubá e as inúmeras línguas e dialetos; as religiões de matriz africanas, a força e a grandeza de seus orixás, babalorixás, babalaôs e seus rituais, possuem um papel especial na cultura brasileira.
          Ainda se ouve o alarido festivo sob o comando de ogan nulú ao som de atabaques, berimbaus e agogôs, que ecoam de quilombos e quilombolas. Faz-se ouvir a grande alegria – camuflando a dor e a distância -, ritmos e inúmeras cores, misturando-se ao rubro em cascatas pelo corpo. A música das senzalas e mocambos coloca a Casa-Grande para sambar. O sincretismo, a capoeira e a dança marcada, salve, salve o Congo e Nossa Senhora do Rosário, a Congada!
         Escravos africanos vítimas do senhorio cristão europeu, trazidos a ferro pelos portugueses para o Brasil, amontoados em navios asfixiantes e em condições ultrajantes. Sob o tilintar dos grilhões, desembarcaram e, com eles, além da dor do exílio, a saudade de Oyó. Sua garra e suas raízes como armas de resistência e esperança. A identidade que os açoites e a senzala, que o racismo e a intolerância, não conseguiram silenciar ou apagar.
          A construção da grandeza dessa terra, inúmeras vezes marcada pelo sangue alheio, para saciar a sanha de latifúndios canavieiros, mineradores, cafeeiros, numa supremacia branca, patriarcal e ordinária. O sal gotejado na terra fértil, irrigada pelo suor de bantos e sudaneses, fizeram a fortuna e a doçura da cana e da vida de muitos infames senhores. Do açúcar alvo como a neve, que deixava mel o amargo café. Temperado pela vergonhosa escravidão dos renegados e a miséria dos ignorados que tanto contribuíram para a grandeza econômica e cultural do país! Pelas mãos calejadas e pés em brasa, impávidos cor de ébano, historicamente inferiorizados e marginalizados, pela intolerância caucasiana e racista.
         É inegável o quanto somos um país miscigenado – índio americano, branco europeu, negro africano. Uma diversidade cultural e religiosa riquíssima, fruto do sincretismo e do ecletismo cultural-religioso. Que nos legou não só um povo multirracial, como também, o cristianismo e suas convicções, a grandeza das religiões de matriz africanas e suas tradições milenares. De Xangô deus da justiça, do fogo, tanto quanto Tupã para os Tupis-guaranis.  O mesmo Atlântico que banha a Baía de Todos os Santos é o mesmo que banha a África, seus orixás e os caracóis de todos os cabelos.
         Manifestações culturais como as Congadas, congado ou congo, realizada em algumas partes do Brasil, consiste numa celebração, expressão de agradecimento do povo congolês aos seus governantes, inspirada no Cortejo aos Reis Congos.  Festividades que revelam uma tradição de encher os olhos, um mergulho cultural e histórico, da vitória da resistência contra a opressão! Um espetáculo a céu aberto, tendo o sol como as luzes da ribalta, numa grande e colorida festa popular e que indistintamente, abarca e abraça todos os credos, etnias e níveis sociais. Numa demonstração clara do quanto às diferenças, nos tornam tão iguais! Das catedrais e sinagogas, as mesquitas e terreiros; de todos os santos aos orixás; do sincretismo religioso ao respeito e a tolerância. O folclore e a religiosidade presentes na tradição.
       A importância, as influências históricas e culturais africanas, na construção da identidade do miscigenado povo brasileiro, em uma convivência com tamanha diversidade étnica, religiosa e cultural. Perpassando e presente no nosso vocabulário - angu, banzo, cachaça, cachimbo, cafuné -, culinária - acarajé, vatapá, feijoada, cocada -, música e dança – samba, capoeira, lundu, Maracatu, Congada, Cavalhada, Moçambique -, religião – Candomblé, Vodu e com raízes africanas como a Umbanda - e uma infinda contribuição, que torna-nos um pouco tão africanos, quanto brasileiros.

Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Claretiano Centro Universitário, Pós-Graduado Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Mestrando em História – Cultura, Religião e Sociedade – pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). Professor, poeta, escritor e palhaço voluntário de hospital. Colabora com artigos de opinião, poesias e crônicas nos jornais Diário da Manhã, Jornal Opinião Goiás e Folha de Caiapônia. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2019 (2ª. Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e  4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.

CONGADAS


TRADIÇÃO E FÉ AO SOM DOS ATABAQUES

      Chegou a hora, o despertar com a Alvorada, ruas em festas, tambores, cuíca, caixa, reco-reco, pandeiro, cavaquinho, tamborim e a sanfona. O som da África, batuques, atabaques, grande alegria, ritmos e muitas cores, os ternos, tradição e auto de fé. A música das senzalas coloca a Casa-Grande para dançar. O sincretismo e a dança marcada, salve, salve o Congo, Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, Congada!
     Estudos apontam que a partir do século XVII em Pernambuco, escravos africanos vítimas do senhorio cristão europeu, foram trazidos pelos portugueses para o Brasil, em navios asfixiantes e em condições ultrajantes. Sob o tinir dos grilhões, desembarcaram e, com eles, além da dor do exílio, a saudade da terra mãe. Sua garra e suas raízes como armas de resistência e esperança. A identidade que os açoites e a senzala, que o racismo e a intolerância, não conseguiram silenciar ou apagar.
        A construção da grandeza dessa terra, inúmeras vezes marcada pelo sangue alheio, para saciar a sanha de latifúndios canavieiros, cafeeiros, numa supremacia branca, patriarcal e ordinária. O sal gotejado na terra fértil, irrigada pelo suor de bantus e sudaneses, fez a fortuna e a doçura da cana. Do açúcar alvo como a neve, que deixava mel o amargo café. Temperado pela vergonhosa escravidão dos renegados e a miséria dos ignorados!
        Pelas mãos e pés de guerreiros que por sua pele negra, resistência de ébanos africanos e afro-brasileiros, historicamente ignorados,   inferiorizados e marginalizados, justificada pela pseudociência da Eugenia, alicerçada na intolerância e no darwinismo social.
      É inegável o quanto somos um país miscigenado – índio americano, branco europeu, negro africano. Diversidade cultural e religiosa riquíssima, fruto do sincretismo e do ecletismo cultural-religioso, que nos legou não só um povo multirracial, como também, o cristianismo e suas convicções, a grandeza das religiões de matriz africanas e suas tradições milenares. De  Xangô deus da justiça, do fogo, tanto quanto Tupã para os Tupis-guaranis e seus Xamãs.  O mesmo Atlântico que banha a Baía de todos os santos, banham a África e seus orixás.
         Outubro é realizada a festa em louvor a Nossa Senhora do Rosário em Catalão. A beleza e a grandeza do sincretismo, com elementos de fé, o cristianismo e das raízes africanas, que permeiam nossa identidade cultural. Conhecida como  Congadas, congado ou congo,  realizada em algumas partes do Brasil,  consiste numa celebração,  expressão de agradecimento do povo congolês aos seus governantes, inspirada no Cortejo aos Reis Congos.   
      As festividades na cidade acontecem desde 1876,  revelando uma tradição de encher os olhos, um mergulho cultural e histórico, da vitória da resistência contra a opressão! Um espetáculo a céu aberto, numa grande e colorida festa popular e que indistintamente, abarca e abraça todos os credos, etnias e níveis sociais. Demonstração pública e inequívoca do quanto às diferenças, podem ser agregadoras e nos tornam tão iguais!
        Os ternos coloridos e festivos, congadeiros e devotos de todas as idades, animam por onde passam o cortejo, com muita dança, sob o ritmo da zabumba, cantorias, alegria e fé. Há uma hierarquia, onde se destaca o rei, a rainha, os generais, capitães, etc. O folclore, a festa popular e a religiosidade presentes na tradição, além das raízes do Congo, também de Angola, Moçambique e outras regiões da África.
        Portanto, deixo aqui, dois convites. Um, para visitar Catalão e suas históricas Congadas. O outro, uma reflexão. O quanto muito nos enriquece, esta convivência com tamanha diversidade étnica, religiosa e cultural. Que nos coloca frente a frente, com questões desafiadoras, pautadas pela informação, respeito e a tolerância. Princípios elementares, básicos, grandiosos e determinantes para a construção de uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária.
         Querendo ou não, todos nós temos sangue negro! Alguns, nas mãos. A mesma que segurou o chicote e hoje ostenta o racismo e a intolerância!                      
          Axé!

Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Claretiano Centro Universitário, Pós-Graduado Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Mestrando em História – Cultura, Religião e Sociedade – pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). Professor, poeta, escritor e palhaço voluntário de hospital. Colabora com artigos de opinião, poesias e crônicas nos jornais Diário da Manhã, Jornal Opinião Goiás e Folha de Caiapônia. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2019 (2ª. Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e  4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.