O Imperialismo dos séculos XIX, XX traçou um desastroso destino para asiáticos e africanos, assim como o Colonialismo, dos latino-americanos. Com uma ação irresponsável e sádica, sob a égide da diplomacia do canhão, as nações europeias, colocaram seus interesses, acima tudo. Fomentando a “política de expansão e o domínio territorial, cultural ou econômico de uma nação sobre outras, ou sobre uma ou várias regiões geográficas”.
A Conferência de Berlim realizada entre 19 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885, teve como objetivo organizar, por meio de regras, a ocupação da África pelas potências coloniais, resultando numa divisão territorial que não respeitou, nem a história, nem as relações étnicas e mesmo familiares dos povos, partilhando, esquartejando feito um amargo e indigesto bolo, criando fronteiras artificiais, deixando grupos étnicos rivais do mesmo lado e abrindo caminho para conflitos sem precedentes. Como o massacre de Ruanda em 1994, quando extremistas hutus – maioria - vs tutsis – minoria - deixaram um rastro de sangue e selvageria, de 800 mil mortos, após um atentado que matou o presidente Juvénal Habyarimana – hutu.
Em nome do progresso e do famigerado capitalismo, da Segunda Revolução Industrial, saquearam, pilharam, humilharam e abriram feridas que jamais cicatrizariam, tanto na África - Líbia, Marrocos, Egito, Somália, Ruanda, Nigéria, África do sul - como na Ásia – Índia, Bangladesh, Laos, Camboja, Vietnã. O legado do Neocolonialismo, foi perverso, violento e miserável.
Se nos séculos XVI, XVII, XVIII o discurso europeu foi o religioso, a catequese – a bíblia na mão e a espada na outra - como instrumento e mecanismo de submissão, alienação e exploração dos ameríndios; vítimas do genocídio físico e cultural, legitimado pela Santa e Madre Igreja Católica Apostólica Romana; agora, o discurso é outro, do protestantismo europeu ao da superioridade racial e sua “Missão Civilizadora”, abrindo caminho para o chamado darwinismo social. Como afirmou Jacques Bossuet, “a História é o grande espelho da vida; instrui com a experiência e corrige com o exemplo”.
Portanto, a ação imperialista foi devastadora e insana. Miséria, fome, guerras civis intermináveis, descontrole da AIDS, epidemia de Ebola e tantas outras mazelas, que revelaram ao mundo dos séculos XIX, XX e XXI, a imagem assustadora de um continente “atrasado”, “pobre” e selvagem! Passando pelo exótico e o primitivo. Como justificativas para a exploração e a sentença de morte de grupos étnicos milenares. Além do massacre cultural e a marginalização das religiões afro. Ao longo deste processo histórico, europeus – principalmente – subestimaram os problemas africanos e asiáticos, ignoraram seu povo e fomentaram o caos, resultando numa tragédia humanitária, sem precedentes!
Os séculos XX e XXI, os europeus tem assistido perplexos, uma verdadeira invasão dos outrora, invadidos! A travessia suicida de fugitivos do norte da África e Ásia, em uma fuga alucinada de guerras intermináveis, perseguições religiosas e políticas, violência em grande parte gerada por grupos fundamentalistas islâmicos, como o Al-Shabaab na Somália, o Boko Haram na Nigéria, o EI no Iraque e na Síria – neste caso, com um agravante, uma guerra civil que já dura 4 anos, com 2 milhões de refugiados e 250 mil mortos -, além dos intermináveis regimes ditatoriais e conflitos étnicos.
O boomerang histórico pintado pelo Imperialismo, ganhou vida e agora assombra a Europa. O tão antigo e tão atual ditado popular: “quem planta vento, colhe tempestade.”
A esmagadora maioria são de africanos e asiáticos, que atravessam ou tentam atravessar o Mediterrâneo, tentando chegar na Europa, em condições deploráveis, que nos remete aos “Navios tumbeiros” que marcaram a vergonhosa escravidão negra nos séculos XVII, XVIII, XIX, na América. Navios abarrotados de escravos, “negros como a noite”, como já dizia Castro Alves, que atravessaram o Atlântico, para saciar a sanha de um lucrativo comércio estúpido e vergonhoso.
Outro drama enfrentado pelos imigrantes ilegais que tentam cruzar o Mediterrâneo, são as rústicas embarcações, super lotação, resultando num trágico saldo de mais de 3.000 mortos na arriscada travessia. Muitos são encontrados mortos nos porões das embarcações, causada provavelmente por asfixia da fumaça do combustível. Os traficantes, costumam colocar nos porões, aqueles que pagam menos pela viagem, quase sempre, mulheres e crianças.
A rota mais comum, partem do norte da África, geralmente da Líbia, até o ponto mais próximo, já em território europeu. A porta de entrada é a Itália, Ilha de Lampedusa, com cerca de 5.000 habitantes. Após entrarem em território europeu, o destino final, da grande maioria, seria o norte da Europa, Reino Unido. A guarda costeira italiana, vasculha o Mediterrâneo dia e noite, tentando salvar os fugitivos de possíveis naufrágios – comuns na travessia -, resgatando-os e em muitos casos, mandando-os de volta.
Os que conseguem chegar até a França, numa outra travessia suicida, partindo de Callais, norte da França, tentam por terra, atravessar o Eurotúnel – túnel ferroviário de 50, 5 km de extensão -, que sob o Canal da Mancha, liga a França a Inglaterra. Escondidos em caminhões de cargas ou desvencilhando do Eurostar, trem de alta velocidade – que viaja a uma velocidade de 170 km/h, podendo chegar em alguns trechos a 300 km/h -, ligando Paris a Londres.
Para se ter uma ideia do que está acontecendo, só até o mês de julho, estimativas, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, já chegaram a Europa, 224.000 refugiados e imigrantes. 98.000 à Itália e 124.000 à Grécia. Utilizando botes infláveis, os refugiados entram no país, desencadeando uma grande crise humanitária. Acampamentos em péssimas condições, sem água tratada, comida, enfrentamento com forças de segurança, como por exemplo, na fronteira da Grécia, com a Macedônia.
Portanto, caros leitores, compreender este processo histórico, se faz necessário ter clareza do quanto o mundo europeu, tem ignorado – desde o séc. XIX -, as grandes tragédias humanitárias na África e na Ásia. Quando grande parte delas, foram de uma forma ou de outra, semeada, cultivada e agora, a colheita. O Imperialismo, os ignoraram e os esqueceram. Agora, a História reaviva a memória das grandes potências, que forçosamente, abriram os olhos para problemas e pessoas, até agora “invisíveis”.
O fantasma que assombra a Europa, cansou de assustar mortos e zumbis na África e na Ásia! “Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre”, Eduardo Galeano.
Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de
Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela
Universidade Federal de Goiás, com Habilitação
em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário
Claretiano, Pós-Graduando em Docência do
Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico,
recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião
e crônicas nos jornais Diário da Manhã
e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e
críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto
livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e
crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”,
poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os
séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e 4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o
quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor
do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.