sábado, 7 de setembro de 2019

AINDA RESTA-ME A DIGNIDADE


Quando o local de trabalho vira “vale tudo”

         Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, diz que “viver é negócio muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo...”, quão magnífico reside no sempiterno aprender! Árdua caminhada de felicidade meteórica e sofrimentos longevos na diária via crúcis, numa luta dura e desigual. Entre caminhos tortuosos, o bálsamo das glórias em migalhas e os odiosos espinhos cravados de criaturas desprezíveis, como os bajuladores! Em meio ao suor do labor e o sangue fomentado pelos covardes e infames. Figuras nefastas, vil, notória incapacidade moral e inteligência duvidosa. Fazem de uma ocupação temporária, tábua de salvação ou prêmio de consolação, para os fiascos da vida pessoal.
     Para alguns, uma função no serviço público ou privado, seria talvez, a maior conquista possível para um fracassado nato, que faz disso, um projeto de vida. Procura garantir suas mesquinhas ambições, em torno de um mísero salário e viver sob as migalhas das benesses do Estado, sendo capazes e propensos a tudo. É deprimente ver tanta gente saindo pela porta dos fundos do que lhe restou de dignidade. Por isso uns têm preço, outros têm valores. “O bajulador, adulador ou lisonjeador e quase sempre um ente infeliz, porque se sente inferior e se reconhece desprezível”.
      Subornam seus próprios princípios, negociam a moral, atacam à ética, se cercam de inábeis e energúmenos, sempre escoltados por um exército patético de fiéis medíocres, servis e mofinos.  Aprendi desde a mais tenra idade, que certas coisas, são inegociáveis, como caráter e dignidade, por exemplo. Despertar a ira de “superiores hierárquicos meritocráticos”, por não se vender por um pretenso cargo, torna-se um perigo para sua permanência. “O melhor indicador de caráter de uma pessoa é como ela trata as pessoas que não podem lhe trazer benefício algum”.
     Incapazes de perceberem que as instituições permanecerão e seus reles cargos, irrelevantes ou não, funções e ocupações, passarão e quase sempre, jamais serão lembrados – principalmente por seus subordinados ou colegas de trabalho. Ante sua constrangedora e limitada capacidade intelectual, não compreendem o quanto é fugaz suas posições de manteigueiros, frutos podres da mendicância, insignificância profissional e moral. Sempre a sombra, a espreita, nas alcovas tramando as armadilhas ascosas, no próximo puxa-tapete.
       Os aduladores, sempre às voltas com os lambe-botas, conspiradores, vorazes e sedentos de mãos estendidas incansáveis a pedir algo, de joelhos em busca de um “carguinho” mequetrefe, camuflando suas agruras pessoais. E danem-se os escrúpulos! O triunfo de uma tropa de idiotas, prontos para blindar seus padrinhos e abrirem caminhos, aos seus apadrinhados, ainda que de cabelos grisalhos, pois “os canalhas também envelhecem”, dizia Rui Barbosa.  Algo muito habitual na administração pública e privada, tratar os iguais, de forma diferente.
     Maquiavel dizia que os fins justificam os meios. E nessa perspectiva, vale tudo! Assédio moral, repressões silenciosas, perseguições veladas, a implacável acossa aos que não compactuam com as práticas promíscuas da bajulação, consistindo em um ato grave de rebeldia e insubordinação. Pensar então, imperdoável!
        Quão ultrajante é o convívio com esses infames. Tacanhos, bazófios, torpe e muito mais típico dessa estirpe de projeto malsucedido de ser humano. Covardes e bajuladores, os paus-mandado de seus protetores imediatos, sempre de angelicais sorrisos, beijos de Judas e tapinhas nas costas de Tamanduá Bandeira.  Os calorosos abraços mortais das serpentes e os ataques sórdidos pelas costas! “Que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio”? Bertolt Brecht.
       Entendo que de alguma forma, o afastamento de alguém de suas funções, atenda aos interesses de outrem ou por razões escusas. Não quero acreditar que o ato de estudar, buscar qualificar-se se torna uma falha grave dentro de uma instituição de ensino e incomode tanto uma plateia que zurra e trota! Bem afirmou Tony Robbins, “o conhecimento é uma das grandes maneiras de quebrar as algemas de um ambiente limitador”.
       Portanto, não aprendi negociar meu caráter e minha dignidade, por emprego, concurso, função ou qualquer compensação financeira. Por isso continuo ignorado e desprovido. Ainda posso andar de cabeça erguida, com ou sem um cargo público! Pois “os cães ladram e a caravana passa”. A pior das injustiças é a institucionalizada. Pois a questão maior, não se trata da falência moral e econômica do sistema, ele foi criado exatamente, com essa finalidade, para não funcionar, perseguir e excluir. “Prefiro morrer de pé que viver sempre ajoelhado”, faço minhas, as palavras de Emiliano Zapata, meus pérfidos amigos de trabalho.

Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Claretiano Centro Universitário, Pós-Graduado Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Mestrando em História – Cultura, Religião e Sociedade – pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). Professor, poeta, escritor e palhaço voluntário de hospital. Colabora com artigos de opinião, poesias e crônicas nos jornais Diário da Manhã, Jornal Opinião Goiás e Folha de Caiapônia. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2019 (2ª. Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e  4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.

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