Na incansável
busca por um bálsamo para as dores do corpo e os tormentos da alma, o sagrado,
como um milagre, se manifesta para muita gente, como a grande “tábua de
salvação”. Com os olhos no Altíssimo e ignorando suas responsabilidades
terrenas, reais e concretas, vivem esperando a redenção na morte, diante de uma
vida medíocre, sob o olhar míope e equivocado, sobre aquilo que depende de cada
um e não, do além!
Diante da “incapacidade” crítica e racional,
de encarar as consequências dos próprios atos, como fruto inconteste das
próprias ações, arcando com o ônus, como deve ser, o resultado não poderia ser
outro, a não ser, o eterno inconformismo.
Desde tempos remotos, o homem tem
olhado cada vez mais para o céu e, quase sempre, esquecido de olhar para o chão
ou para o próprio umbigo. Olhar um pouco mais para onde pisa, para a realidade,
o trabalho, as transformações, as ações pessoais e cotidianas, a solidariedade,
a honestidade, os tropeços típicos de cada um e uma visão menos simplista,
responsabilizando – Deus ou o Diabo - como ação do sagrado ou do destino, castigo ou
maldição, únicos responsáveis pelos sucessos ou os fracassos da humanidade!
Parece cômodo e conveniente, muita gente esperando do além, o que de fato
deveria ser feito por cada um.
Numa espera diária por um milagre e de “boca
aberta escancarada esperando a morte chegar”, muitos oportunistas de plantão, apropriam-se
do suor de terceiros, para viverem no ócio, na “Graça” do trabalho alheio. Com
um discurso proselitista e uma vida inteira em busca de recompensa. Como se
ajudar alguém e ser correto, só se justificasse pelo fato de que seria
recompensado.
Os canalhas adeptos da
enganação, agem pela fé, amor ou banditismo “aceitável”? Inúmeros líderes
religiosos – das mais diversas vertentes – que deveriam estar presos e não
falando em nome de Deus! Quem sabe, um estágio no inferno, já que falam mais no
diabo, que em Deus! Alguns – até parecem que foram feitos de um barro diferente -, tem se tornado
verdadeiros “pop star”; programas de
rádio, TV, outdoor e o mais novo filão do mercado fonográfico, televisivo e
arquitetônico, o estilo Gospel ostentação!
A idolatria, o luxo, a ganância que criticam tanto em uns, é personificada na
pessoa de alguns líderes arrogantes e gananciosos. Se autodenominam “apóstolos,
bispos” – entre outras inúmeras designações - e usam seus templos como espaço
para propaganda política, curral eleitoral e promoção pessoal. Fazendo de
religiões, seitas, igrejas, denominações, verdadeiros redutos e currais
eleitorais, num celeiro de votos e grandes multinacionais da “Fé”!
Defendem fervorosamente, a
“Teologia da Prosperidade” e a grande transformação na vida financeira de seus
fiéis ou seguidores, estabelecendo uma relação promíscua entre religião e
ostentação. Com o eterno discurso proselitista, de amor, paz, fraternidade, tolerância,
perdão, o que na prática, se traduz em algo muito distante do que se apregoam
por aí em igrejas, mesquitas, sinagogas, basílicas, catedrais e outros redutos “sagrados”
repletos de luxo, para falar de algo tão simplório, que em tese, não deveria ser
pago. Falam de profetas e figuras “sagradas”, humildes e que viveram tão distantes
da riqueza material, tão desejada por seus seguidores. Que fazem da fé e da
desgraça alheia, um lucrativo e atrativo negócio! Criticam uns aos outros e ao
mesmo tempo, agem da mesma forma.
As religiões, fizeram de Deus e seus mandamentos ao longo da
história, algo ironicamente, contraditório. Não gerou amor ou união, e sim, ódio,
discórdias e guerras homéricas. Como disse Gandhi, “amo o cristianismo, mas odeio os cristãos, pois não vivem segundo os
ensinamentos de Cristo”, salvo algumas raríssimas exceções, é claro. Bem como
também, em outras religiões não cristãs!
As Cruzadas medievais nos séculos XII e XIII, entre cristãos e muçulmanos;
a “Noite de São Bartolomeu” em 1572, na
França, entre católicos e protestantes; o “Domingo
Sangrento” em 1972, na Irlanda do Norte, entre católicos e protestantes; os
Atentados de 11 de setembro de 2001, nos
Estados Unidos, entre muçulmanos e o mundo cristão-judaico; as Guerras Árabes-israelenses, entre judeus
e muçulmanos; as ações pavorosas e abomináveis do Boko Haram na Nigéria, com o injustificável massacre de cristãos; o
fundamentalismo do Estado Islâmico,
com a carnificina de não-muçulmanos sunitas e as decapitações de cristãos
coptas, são algumas das indigestas ideologias, que fomentam lamentáveis
episódios históricos, sob a égide da religião, foi e é indevidamente usada como
pano de fundo para a barbárie e a insanidade de alguns “religiosos”.
A intolerância, o
radicalismo, o fundamentalismo religioso, que fomentam o famigerado discurso de
“amor e fé”! Ao final, tudo se “justifica” por ser uma “Guerra Santa”. E dentro
deste universo de fanáticos estúpidos, matar ou morrer em nome de “Deus”, está
justificado e perdoado! Qual guerra pode ser santa? Nada é mais estúpido que
matar em nome de Deus! Alguns judeus, muçulmanos, cristãos, hindus e tantos
outros, pregam o amor e a paz, e praticam o terror. Explícito ou velado, físico
ou mental. Atuam como promotores, juízes e executores. Gostaria só de fazer uma
ressalva, Adolf Hitler, também afirmava que estava a serviço do Criador. Talvez
isto, justifique a inércia e a conivência do excelentíssimo senhor Eugenio
Pacelli, o Papa Pio XII, diante da tragédia vivida pelos judeus, durante a
Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Outro paradoxo que é impossível
não perceber – exceto os cegos pela ignorância e incapacitados mentalmente -,
são os cada vez mais monumentais templos, que colocam seus verdadeiros fiéis,
constrangidos diante de tanto luxo. Em nome de quê e de quem? Bancado e
financiado por quem? Quanto do suor de cada fiel e trabalhador, são
necessários, para construírem templos riquíssimos, Basílicas tão imponentes,
Santuários suntuosos, para muitos que não tem nem onde morar? Outro dia, pela
segunda vez, li nas escrituras que Cristo, por exemplo, nasceu numa manjedoura,
era filho de um carpinteiro, era simples, humilde, não exigia nada de ninguém
que desejasse segui-lo e condenou o comércio dentro do templo. Então, porque
que alguns “cristãos” de hoje, precisam de templos tão suntuosos e se falam
tanto em ofertas e doações? Nas minhas simplórias leituras, não percebi em
Cristo, Maomé e tantos outros, enquanto líderes, o desejo desse estrelismo, tão
amado, desejado pelos líderes religiosos de hoje! Fico imaginando, como seria
uma “fotografia” gigante do rosto de Cristo na fachada de um templo! Em outras
palavras, tem uns por aí, que preferem o marketing
pessoal.
Será a obra de “Deus” ou de
homens pretensiosos, que se apropriam da fé e das necessidades reais, materiais
de algumas pessoas, com certa frequência, fracas, cegas e que buscam a redenção
por intermédio de contribuições financeiras, que viram patrimônios de terceiros,
e seus doadores, uma vida real muita das vezes de miséria, sofrimento e
ignorância. Se ninguém é obrigado a nada, vão por que querem, contribuem porque
querem, por que os pedidos por contribuições para a “obra” é um discurso
obrigatório e persuasivo? No rádio, na TV, nos cultos, nas missas, são quase
unânimes na barganha. Você doa, paga e sua vida mudará, a prosperidade baterá a
sua porta, e seu lugar no paraíso, estará garantido! “Tem muita gente cantando como os anjos e mentindo como o diabo”.
Buscam não pelo amor, mas pela dor! Apregoam um marketing na prosperidade material e mantendo a cegueira espiritual.
Tem mais igrejas por metro
quadrado, que hospitais, escolas, museus, bibliotecas. Por que será? Religiosidade,
fé, facilidades legais por parte dos órgãos fiscalizadores, lucros
“filantrópicos”? Se isto fosse o bastante, a “Terra Santa” seria o paraíso! E o
Brasil, não teria as mazelas e os canalhas que tem. E olha, sem trocadilho, há
quem diga que “Deus é brasileiro”. Imagina se não fosse?
Penso, que mais educação, cultura,
arte, esporte, informação, razão, transparência, respeito, tolerância,
fiscalização, menos hipocrisia e cinismo, indiscutivelmente, ajudariam um pouco
mais a transformar a realidade deste país. Ações ainda é o único caminho para
as realizações! Partindo do princípio básico, que do suor do teu rosto, comerás o teu pão.
A imoralidade, escândalos de
pedofilia, o charlatanismo, lavagem de dinheiro, o comércio imoral e duvidoso
da fé, venda de indulgências e simonia, e muito mais, capaz de envergonhar
profundamente qualquer divindade. Parece até piada de muitíssimo mal gosto, o
que alguns fazem em nome de suas crenças, crendices e dogmas! Criticam a união homoafetiva
e ignoram a exploração financeira da fé alheia, por exemplo. Sem falar, os que
se acham acima do bem e do mal, que tem como princípio, julgar e condenar os
que não comungam de suas convicções religiosas. Apedrejam os céticos e querem
absolver o padre “ex-funcionário fantasma” da Assembleia Legislativa, que usou
o erário durante 20 anos – segundo denúncia do Ministério Público Estadual -,
para realizar “obras assistenciais”. Nem Robin
Hood faria igual. Isto que é amor ao próximo! Entre outros inúmeros casos
escabrosos, como o do casal de bispos Estevam Hernandes e sua esposa Sônia
Hernandes, fundadores da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, que foram presos
em 2007 nos Estados Unidos, pela polícia federal (FBI), ao entrarem no país com
US$ 56 mil em espécie escondidos dentro da bíblia que levavam. Declararam às
autoridades alfandegárias, que levavam apenas US$ 10 mil. E José Dirceu, José
Genuíno, Marcos Valério, Alberto Youssef, Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró,
Pedro Barusco, Marcelo Odebrecht, Fernando Collor? Injustiçados, perseguidos,
constrangidos por acusações levianas, descabidas e caluniosas. A culpa deve ser
do capiroto!
Acredito que Deus, deve estar profundamente
decepcionado com a sua criação. Provavelmente, nem ele jamais imaginou a
capacidade criativa e perversa de algumas de suas criaturas, seguidores fiéis,
alguns até mais graduados, bispos, apóstolos, seriam capazes de realizar em seu
nome! Ou, de acordo com seus próprios interesses, políticos e econômicos. “Jesus escolheu, para nascer, um deserto subtropical
onde jamais nevou, mas a neve se converteu num símbolo universal do Natal desde
que a Europa decidiu europeizar Jesus. O nascimento de Jesus é, hoje em dia, o
negócio que mais dinheiro dá aos mercadores que Jesus tinha expulsado do templo”, afirmou Eduardo Galeano.
Portanto, penso que o que nos
torna melhor, pessoas melhores, tolerantes, respeitosas, honestas, não é religião,
mas sim, nosso caráter. Nossas atitudes e nossas ações! “Não adianta ir à igreja, rezar e fazer tudo
errado”. Falar, até papagaio fala!
Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de
Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela
Universidade Federal de Goiás, com Habilitação
em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário
Claretiano, Pós-Graduando em Docência do
Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico,
recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião
e crônicas nos jornais Diário da Manhã
e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e
críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto
livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e
crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”,
poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os
séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e 4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o
quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor
do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.
Sobre o comodismo que sabiamente o senhor criticou,é até mesmo bíblico em 2 tessalonicenses 3-18 diz que devemos trabalhar para não sermos pesados aos outros. Sobre os pomposos templos construídos,é algo que apesar da minha fé, também critico. As pessoas estão servindo um Deus que não quer absolutamente nada material.
ResponderExcluirSandra - 1° ano
Exatamente. Muitíssimo obrigado!
Excluir