sexta-feira, 27 de maio de 2016

NAKBA

       Ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ainda inebriado diante do cenário catastrófico e um mundo estupefato diante da capacidade humana de destruição e barbárie. Sob o impacto e os escombros do conflito, líderes mundiais, preocupados com os novos horizontes, inúmeras vezes, nada otimistas ou promissores decidiram em 1947, através de uma resolução da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, pela criação de dois Estados na Palestina. Um judeu e outro árabe-palestino. 
       Numa espécie de “recompensa” ou mea-culpa, dos que foram omissos diante de alguns acontecimentos que marcaram o conflito. Sob a mácula covarde e injustificável do Holocausto imposto ao povo judeu – não menos que as bombas de Hiroxima e Nagasaki - diga-se de passagem, sob a égide da política nazista do antissemitismo, que resultou na morte de pelo menos, 6 milhões de judeus! Principalmente, nos chamados Campos de Extermínio ou Concentração, como Treblinka, Sobibor, Dachau, Auschwitz entre outros.
        No entanto, o que se seguiu não foi o determinado pelas Nações Unidas. Com o apoio total e irrestrito dos Estados Unidos, em 14 de maio de 1948, na cidade de Tel Aviv, na véspera do “Sabath”, quinto dia do Yvar do ano de 5708, sob a liderança de David Ben Gurion, nasceu oficialmente o Estado de Israel. Levando à expulsão de milhares de árabes palestinos que viviam na região. 
       Restaram-lhes, a humilhação e as migalhas. Apinharam-se na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Outros, refugiaram em países próximos, como Jordânia, Líbano e Síria. Uma verdadeira “Diáspora” palestina! 
     Dois pesos e duas medidas. Criaram o Estado judeu – conforme determinava a Resolução 181 da ONU - e o mesmo não aconteceu com o Estado palestino. Iniciava-se um novo capítulo na já conturbada história do Oriente Médio. A encruzilhada de povos. Colocando milhões de palestinos na clandestinidade, na condição de “ilegais”, “invasores” e “terroristas”.
       E assim, ironicamente, os judeus de outrora perseguidos e injustiçados, tornaram-se perseguidores implacáveis, sanguinários e algozes cruéis. Com o aval da ONU e USA, Israel foi “legitimando” suas ações militares e inúmeras vezes covardes, consolidando sua supremacia na região, confinando, encurralando os palestinos - transformando a Faixa de Gaza e a Cisjordânia - em verdadeiros guetos, os quais os judeus também foram vítimas durante a implacável perseguição nazista, na Segunda Grande Guerra.
       Com a ajuda financeira dos Estados Unidos e de judeus que vivem no exterior, mais uma população de elevado nível educacional, fazem de Israel uma das economias mais desenvolvidas do Oriente Médio. Detém uma tecnologia avançadíssima, uma agricultura moderna em terras áridas do país, indústria bélica de ponta, informática e um poderoso arsenal militar. Ou seja, Israel e os Estados Unidos, querem a “paz”, mas vivem em função da guerra.
      Atualmente, os palestinos constituem um dos maiores contingentes de refugiados no mundo, somando mais de cinco milhões de seres humanos. Na sua grande maioria absoluta, na miséria extrema. Sem moradia, saneamento básico, desempregados, analfabetos e reféns do poderio econômico e bélico do inimigo que vive à espreita. Só em Gaza, 80% da energia elétrica e do combustível consumidos, são fornecidos por Israel. Fazendo disso um trunfo para terem os palestinos sob total controle.
       O abismo social, econômico e militar entre israelenses e palestinos, acaba fomentando o ódio e o fundamentalismo islâmico, por parte de alguns. Ou seja, o terrorismo surge como uma das pouquíssimas “alternativas” para se enfrentar o belicísmo israelense. Um acordo político e diplomático para a questão já vem sendo articulado e costurado desde os anos 60 do século passado, quando em 1964 o egípcio Yasser Arafat, que faleceu em 2004, fundou a OLP – Organização para a Libertação da Palestina, tornando-se um dos maiores líderes da causa palestina da História. Seria o braço político palestino na luta pela criação de um Estado autônomo, independente e foi um dos fundadores do Fatah ou Al-Fatah – organização política e militar -, que hoje controla a Cisjordânia, sob a liderança de Mahmoud Abbas, Presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, desde 2005 com sede em Hamallah, capital.
         Como se não bastasse ignorar a Resolução 181, em 2002, Israel iniciou a construção de um muro – que eu chamaria aqui de “Muro da Vergonha” -, como aquele famoso da Guerra Fria, que dividiu a cidade Berlim em 1961.  O referido e vergonhoso muro, construído na Cisjordânia, tem por finalidade, segundo seus idealizadores, separar as populações judaicas e árabes, isolando-os. A justificativa inicial era impedir a entrada de terroristas em Israel – como se o terrorismo, fosse exclusividade de palestinos. Yigal Amir, terrorista judeu que assassinou o primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin, logo após assinar um acordo de paz com palestinos em 1995, que o diga. Na prática, o muro propicia a anexação, por parte de Israel, de áreas palestinas. Bem como, os assentamentos judaicos ilegais, em territórios palestinos, que em 2014, bateram o recorde. 
       Além disso, a barreira impede a circulação normal de pessoas pela região. Bairros e vilas ficaram isolados uns dos outros, bloqueados por enormes paredes de concreto com mais de 9 metros de altura. A Assembleia Geral da ONU condenou, em 2004 a construção do muro. No mesmo ano, a Corte Internacional de Justiça considerou a barreira ilegal. Ainda assim, Israel mantém sua construção. “Talvez” isso explica o fato de nunca um líder israelense, ou norte-americano, terem se sentados no banco dos réus em Haia! 
        Os carcarás imperialistas respaldam as ações “militares” de Israel, que continuam a fazer vítimas o que bem quer e entendem com os palestinos. Com total e irrestrito aval dos Estados Unidos, sob o olhar moribundo da ONU e estrábico da Comunidade Internacional. Todos igualmente inertes, covardes e incompetentes. Sob os velhos e injustificáveis argumentos de que as ações israelenses são legítimas e defensivas, enquanto às ações palestinas, são atos de terrorismo e de um povo invasor. E as ações de Israel em Genim e ao navio de bandeira turca que levava ajuda humanitária para Gaza? Ações militares? De defesa? Ou terrorismo de Estado? “Legitimado” pelo direito de defesa? De que ataque? De quem? Será que só Israel e os Estados Unidos possuem esse direito?
       No confronto direto entre Israel e palestinos na Faixa de Gaza (2009), israelenses fizeram uso de armas proibidas por Tratados e Convenções Internacionais, como bomba de Fragmentação e Fósforo Branco, por exemplo. Ataques a comboios de ajuda humanitária com remédios, água potável e alimentos, bem como às instalações da ONU em Gaza. E a pergunta que se faz é simples e direta: alguém foi responsabilizado ou punido por isso?  O saldo foi de 1300 palestinos mortos e 8 israelenses! E o confronto de (2014)? O desequilíbrio de forças continua assustador e covarde. Segundo fontes internacionais, morreram mais de 1867 palestinos, principalmente crianças e mulheres, e não, terroristas do Hamas, como alega o governo de Israel, que já teve 87 israelenses mortos nos conflitos. Ban Ki-moon, Secretário Geral das Nações Unidas, classificou como catástrofe humana os ataques israelenses sobre civis palestinos. 
         Portanto, já se passaram 69 da Resolução unilateral da ONU, determinando a Partilha da Palestina, que resultou na criação apenas do Estado judeu de Israel. Acredito na necessidade de se reavaliar essa delicada questão palestina, sob uma ótica política, histórica, justa e humanitária, sem rótulos, balelas, falácias tendenciosas, proselitistas, religiosas e fundamentalistas. É preciso encarar a questão de frente e acabar de uma vez por todas, com essa insistente e arcaica visão unilateral. Acabar com o estigma de que palestinos são terroristas e algozes e israelenses, vítimas indefesas, ingênuas e que só atacam quando ameaçadas, portanto, legítimas. 
       A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) modificou no dia 29 de novembro de 2012, o status dos territórios palestinos, de “entidade observadora” para “Estado observador não membro” na organização, no que significa um reconhecimento implícito da existência do Estado Palestino no Oriente Médio. O pedido palestino foi aprovado por vasta maioria, de 138 votos a 9. Abstiveram-se da votação, ocorrida na sede das Nações Unidas em Nova York, 41 países.
      Apesar da mudança não alterar o funcionamento da organização, ela permite que a Palestina tenha acesso a agências da ONU, além de sua admissão no Tribunal Penal Internacional – que poderia ser acionado por autoridades do território contra Israel. A aprovação foi uma grande vitória diplomática, mas que expõe as autoridades palestinas a represálias econômicas por parte de Estados Unidos e Israel, que votaram contra. Será por quê?
       Não há outra solução para este conflito, a não ser a criação de um Estado Palestino autônomo e soberano é fato e vital. Estamos falando de seres humanos, tratados como desumanos. É uma causa e uma necessidade tão grandiosa quanto a Paz!   
        Portanto, nestes 68 anos do nascimento oficial do Estado de Israel, as comemorações pelo aniversário serão de apenas um lado. Do outro, Nakba “Dia da Catástrofe”!



         Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás, com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário Claretiano, Pós-Graduando em Docência do Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico, recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião e crônicas nos jornais Diário da Manhã e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e  4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.



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