Falar
das virtudes de quem quer que seja, verdadeira ou não, sempre foi mais fácil. Uma
espécie de paradoxo do cotidiano, que ser sincero tornou-se ofensa! Dizer o que
todo mundo quer ouvir é fácil e doce, ventila poesia, ainda que não seja
genuíno! Isso se evidencia quando vem a óbito um canalha, que se redime e vira
lenda, não bandido! “O mundo estaria
salvo se os homens de bem tivessem a mesma ousadia dos canalhas”, afirmou
Nelson Rodrigues.
A corrupção no seu mais amplo e
profundo sentido lato corresponde à
decomposição das relações humanas, manifestando-se como endemia nacional. Percebo
a necessidade de uma reflexão maior e mais séria sobre esta questão. A desonestidade e a imoralidade política, que
permeia todos os setores da sociedade e desnuda o quanto princípios éticos do certo ou errado, tem sido uma linha tênue! “Nosso caráter é o resultado da nossa conduta” afirmou o grande
filósofo grego Aristóteles.
No
Brasil, “jeitinho” é hábito. Quem tem
ética parece anormal! Segundo a ONG anticorrupção Transparência Internacional,
numa avaliação entre 176 países, estamos em 79º. no nível de percepção de
corrupção. O que indiscutivelmente, fomenta o surgimento de governos
populistas, vociferando políticas retrógadas, ignorando o avanço do abismo
social e a exclusão sempre invisível aos olhos do Estado.
Discutir e refletir sobre esse mal enraizado nas
relações pessoais e institucionais, requer acima de tudo coragem e atitude,
principalmente sob a égide de uma sociedade falso moralista, hipócrita,
camuflada sob discursos conservadores e religiosos. Sobrepondo ao Estado laico
e colocando em xeque a frágil democracia brasileira. De liberdades vigiadas e
repressões silenciosas, veladas, que colocam a liberdade de expressão e o
debate sobre grandes assuntos sob ameaças constantes. “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa
muito nossa”, como disse Jô Soares.
Chegamos num nível de mentalidade – ou falta - tão preocupante, que para
muitos, a corrupção, a trapaça tem se tornado algo “aceitável” e “normal”!
Indiscutivelmente, uma vergonhosa inversão de valores que fomenta a cultura
nacional.
Quantas pessoas reiteram de modo explícito
e categórico que “todo político é ladrão”? E desde quando for ladrão é normal e
aceitável? Às vezes tenho a sensação, que há certo “conformismo”, “aceitação”,
resiliência social na alegação. Será mesmo? O que será pior e mais vergonhoso,
a corrupção ou a impunidade? E aquela máxima popular de “quem não é corrupto, quando for eleito, tornar-se-á”! Precisamos
rever esses conceitos. Não podemos perpetuar a ideia do errado, ser o certo e a
nítida sensação, que ser ético nos constrange! A histórica cultura da “esperteza”,
da “malandragem”, levar vantagem em tudo, é muito diferente de ser honesto. Ser
corrupto, ordinário e desonesto, distancia-nos de uma sociedade mais justa e
igualitária.
Entendo
que em todos os segmentos da sociedade, possuem pessoas honestas, de conduta
íntegra, bem como aquelas desprovidas de qualquer brio ou caráter. Indivíduos
competentes e confiáveis, bem intencionadas, comprometidos e idealistas, como
também, os incompetentes, de moral duvidosa, sórdida. Seja político, jogador de
futebol, militar, professor, escritor, pastor, padre, bispo católico, bispo
evangélico, médium, ateu, à toa, empreiteiro, empresário, banqueiro, famoso ou anônimo,
a corrupção é desvio de caráter, crime covarde, vil, que não tem “cara” ou
culpa; já o resultado, nota-se em cada analfabeto deste país; na qualidade da
educação; na insegurança da segurança pública, na constrangedora e sempre
duvidosa, saúde estatal e suas frágeis e patéticas instituições. Nas promíscuas
e íntimas relações entre o público e o privado!
A ideia deste artigo, fruto da
indignação – que é o que me move - e dos absurdos quase inacreditáveis deste
país, precisam ser vistos e entendidos, como muito além da crítica, da
provocação ou de uma “caça as bruxas”, como alguns “ofendidinhos” se sentirão.
Até porque, já dizia Rui Barbosa, “não se
deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem.”
E como são longevos!
A proposta é um convite a reflexão
filosófica, histórica, moral e política um pouco mais aprofundada. Um despertar
para algo que nos parece, infelizmente, familiar e “natural”. Quem sabe, um
despertar desse estado de letargia em que se encontra a sociedade, de cidadãos mais
conscientes e críticos, intolerantes à desonestidade, que precisam ter clareza
e a certeza, que corrupção não é exclusividade de classe política ou qualquer
outra categoria profissional. Um espectro
intrínseco nas nossas relações diárias e inerente à condição de indivíduos
involuídos e velhacos!
O desvirtuamento se manifesta nas
mais singelas e “ingênuas” atitudes do nosso dia-a-dia. Como “oferecer” um
trocado ao policial como compensação por uma “gentileza”, por um “quebra-galho”.
Aquele que suborna é tão corrupto e
infame, quanto o que aceita o suborno! O estúpido que vive dando carteirada por
ser autoridade – e ainda se apresenta com a clássica e ordinária pergunta: “você sabe com quem está falando”? Isso
quando o infeliz, não é um amigo do amigo de uma autoridade, típico do ranço
provinciano que nos pariu, nas raízes malditas e vergonhosas do tão antigo e
tão atual coronelismo!
Pode até parecer cultural e “legal”, mas é imoral. Aquela
“insignificante” e ingênua cola na escola – que o delituoso de forma patética
ainda ironicamente, típico dos apodrecidos -, diz: “quem não cola, não sai da escola!” – não é lindo? Para muita gente,
isto é normal! É aí que está o problema. O que fura a fila da cantina, do
banco, do estádio, do cinema; que transgride as leis e alguns princípios
básicos da boa convivência. Que direta ou indiretamente sempre prejudica
alguém; o “jeitinho brasileiro”, como os recibos forjados por grandes
“profissionais imaculados” para enganar o Imposto de Renda na hora da
Declaração. Ou seja, estão todos no mesmo time de detestáveis, que arrebentam
com a Nação, comprometem o presente e ameaçam o já cada vez mais incerto futuro.
Barão
de Montesquieu afirmou, que “a corrupção
dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios.”
Portanto, de nada adianta ir para as ruas com cartazes e palavras de ordem criticando
a corrupção, os “mensaleiros”, o “petrolão”, por exemplo, se na primeira
oportunidade, o indivíduo tropeça e ignoram princípios, valores elementares e
básicos, mesmo sabendo da ilegalidade do seu ato. O constrangedor nepotismo,
disfarçado de legalidade e competência. Ou seja, de nada valerá as ferrenhas
críticas à corrupção dos outros, se no “nosso” dia a dia,
sempre “estamos” tentando ludibriar ou passar alguém para trás. Ainda que seja,
enganar-se a si mesmo!
Dessa
maneira, percebo a necessidade de repensarmos nossas atitudes e reavaliarmos princípios
éticos básicos, tanto em âmbito privado, como, público. O Brasil é um país
gigantesco por natureza, povo trabalhador por excelência, sofredor e vítima da
famigerada prevaricação e a incompetência de quem governa e avalizados por alguns
cúmplices eleitores.
Ainda que sombrio e difícil no atual Brasil submarino, é preciso
mantermos otimistas e esperançosos por uma grande transformação, que fará da
cegueira, da parvoíce triunfante, o caminho alicerçado na esperança e em cidadãos
conscientes, críticos e intolerantes ao caos. Usufruindo daquilo que nos
aguarda num horizonte ainda incerto, que é o verdadeiro exercício do respeito
ao próximo, ao erário público, na construção da verdadeira cidadania. Que ainda
tem sido um direito distante, restrito e negado a muitos humildes e anônimos
brasileiros, que constroem o patrimônio dos “honoráveis bandidos”, convictos da
impunidade das leis e da miopia dos “deuses terrenos” desta republiqueta de
bananas e patentes. Em palácios, paraísos fiscais ou presídios, chefiados por
quadrilhas de gângsteres, fazendo inveja a qualquer organização criminosa – Yardies, Yakuza, Cosa Nostra.
Portanto, caros leitores, acredito ser a educação – doméstica, escolar -
a arte, o debate de ideias, o contraditório, a leitura, a reflexão, seria o
caminho mais próximo, para repensarmos nossos valores e princípios morais,
éticos e filosóficos. Na incansável luta pela transformação e a construção de
uma sociedade mais fraterna e honesta. Reconhecendo-nos dentro do processo
histórico, no qual, estamos todos inseridos e convictos de que somos nós, os
únicos responsáveis por nosso destino e por um mundo melhor, ou não.
Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de
abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás, com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo
Centro Universitário Claretiano, Pós-Graduando em História e Cultura Afro-brasileira e Africana. Professor, poeta, escritor,
coordenador pedagógico, recreador infantil e palhaço voluntário de hospital.
Escreve artigos de opinião e crônicas nos jornais Diário da Manhã e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias
líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª.
Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o
segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de
opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro,
“ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar
sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014
3ª. e 4ª. edições; sendo a 5ª. edição em
2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015.
Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.
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