domingo, 28 de fevereiro de 2016

TATUAGEM

             Outro dia, distraidamente pela Avenida Rio Verde, próximo ao Buriti Shopping,  numa típica tarde de verão, ensolarada e abafada, tão quente, mais tão quente, que até a água dos cocos ferviam no pé.

              Bermuda, camiseta cavada, boné, “de boa”, com minhas eternas acnes e  tatuagens bem visíveis, tranquilamente...

              Do nada, feito uma guerreira ninja, uma senhorinha daquelas que no popular chamamos de “papa hóstia”, que passam mais tempo na igreja rezando, que praticando o que insistem em não aprenderem, surpreendeu-me.

              Depois de ver minhas tatuagens, com uma voz fina e estridente, bobs e lenço na cabeça, dirigiu-se a mim de forma incisiva e naquele habitual tom proselitista e condenativo, quase agredindo-me em “nome de Deus”, pelos desenhos na minha pele!

              Sei que é meio deselegante, mais sem dúvida alguma, a cara dela chamava mais atenção que minhas tatuagens! Por um instante, fiquei em dúvida se ela falava realmente como “representante” de Deus ou do Diabo – sem querer ofender o Diabo, claro!

             Disse-me num ar quase profético e apocalíptico, em rústico português:

              - Meu fii, tatuagem é coisa do demônio! Ocê pricisa se arrepender se quiser ir comigo pro  céu.

             Como se a verdade que ela pregava fosse a única e a verdadeira!

               Meio atônito com a inusitada situação, numa fração de segundo, refleti sobre o duvidoso comportamento de alguns “porta-vozes” de Deus! Que em seus redutos religiosos, possuem mais gente se redimindo de seus eternos pecados, mendigando perdão e suplicando por uma espécie de “salvo-conduto” para seus próximos deslizes, que agradecendo.

              Cegos guiando cegos,  ignorantes na fé e adeptos de uma teologia de ostentação, sedentos muito mais pelo patrimônio, que pela redenção! Anseiam muito mais pelo reino terreno, seus templos luxuosos e crescimento material, que espiritual. Buscam praticar, o bem, por temerem o castigo celestial e pela recompensa no paraíso. Não por altruísmo, amor ao próximo ou caridade!

               Pregam uma mensagem que não praticam; um amor que não amam; um perdão que não perdoam; uma justiça que só condena e vinga; alicerçada na intolerância, no preconceito, em seus dogmas e na hipocrisia com nome de verdade.

              Depois de ouvir “sábias palavras”, resignei-me no silêncio do meu “pecado”. E silenciosamente, pedi ao Deus daquela senhoria, que a perdoasse por ela ainda não ter aprendido o princípio número um: o maior inimigo dos hipócritas é o espelho!

            Portanto, numa demonstração clara de rudeza e cegueira absoluta, alguns equivocados que se autoproclamam  “filhos de Deus”, ainda não se deram conta, que o que nos tornam melhores ou piores, não é religião, nem muito menos, ter ou não tatuagens, e sim, o caráter e as ações de cada um. Falar, “até papagaio fala”. Como afirmou Voltaire, “a religião mal entendida é uma febre que pode terminar em delírio”.

             Penso que o inferno deve estar congestionado de fiéis como esta senhorinha! E que seu Deus deve ter vergonha de algumas criaturas tão medíocres e ignorantes, que insistem em falar em seu nome!


         Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás, com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário Claretiano, Pós-Graduando em Docência do Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico, recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião e crônicas nos jornais Diário da Manhã e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e  4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.

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