sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

AS LIÇÕES DE FRANCISCO


           Independentemente de religião ou convicções religiosas, estamos vivendo um momento indiscutivelmente, histórico e nervoso. Manifestações que abalaram as estruturas do poder e demonstraram o nível de insatisfação dos brasileiros, com governantes incompetentes e corruptos, bem como, o marasmo das instituições deste país.

              No panorama internacional, a novela Edward Snowden e a espionagem norte-americana; a crise no Egito; na Turquia; renúncia papal depois de 598 anos, quando o então Papa Gregório XII em 14l5, abdicou o pontificado; conclave em março de 2013 na Capela Sistina; a escolha histórica de um papa americano, argentino e jesuíta (Companhia de Jesus); o escândalo de corrupção do VATILIX que tem sacudido a Cúria Romana, com desvios de milhões de dólares do banco do Vaticano realizado por religiosos dirigentes da instituição; JMJ na cidade do Rio de Janeiro; o ostracismo de um papa impotente diante dos novos desafios da Igreja no século XXI, agora emérito, recluso e silencioso, Bento XVI.

          O argentino de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio foi eleito o 266º (ducentésimo sexagésimo sexto) representante máximo da Igreja Católica Apostólica Romana, adotando o nome de Francisco, uma alusão a São Francisco de Assis, frade italiano do século XII que teve uma vida dedicada aos pobres. O novo sumo pontífice, foi o terceiro representante máximo da Cúria a visitar o Brasil – o primeiro foi Karol Wojtyla, Papa João Paulo II (1980, 1991, 1997), o segundo, Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI (2007) - maior país católico do mundo.

          A Jornada Mundial da Juventude, realizada em julho último na cidade do Rio de Janeiro, reuniu mais de dois milhões de jovens de todo mundo, segundo os organizadores do evento. Foi um grande acontecimento religioso, marcado pela fé, emoção e alegria de receber a ilustre visita do chefe de Estado do Vaticano, menor país do mundo. A visita foi pastoral, o que não deixou também de ser política.

          Demonstrando uma vitalidade admirável aos 76 anos, um sorriso contagiante, um discurso pacificador e conciliador, ar de serenidade e sempre com um tom de voz quase inaudível, suave e palavras cativantes, o Papa Francisco, trouxe uma mensagem de esperança para muitos jovens desesperançados e descrentes com as perspectivas do nosso país, certo alento. Disse: “Um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre negativa. A utopia é respirar e olhar adiante."

            Com palavras simples e contundentes, um discurso crítico em relação ao luxo, a ostentação de religiosos e sempre incisivo na necessidade da Igreja de se aproximar de seus fiéis. Do discurso a prática, não ficou só na teoria. As lições que deixou aos jovens da JMJ e a todos em geral que acompanharam sua estada no Brasil foram, pelo menos para mim, dignas e ventiladas de sinceridades.

            Quebrou protocolos de segurança, ao recusar usar um papamóvel blindado para ver e estar em meio ao povo – o que nenhum político brasileiro ousaria, não é mesmo? O “Papa Pop” que optou pela simplicidade e pelo exemplo daquilo que prega. Demonstrou coragem e desapego ao deslocar pela cidade do Rio de Janeiro em um carro popular, de vidros abertos e cumprimentando as pessoas sem nenhum receio e com muita simpatia; com seu tom de voz sempre solene e sereno, também deixou claro, que não precisam esgoelar para ser ouvido e entendido – igual muitos por aí - para falar de Deus ou de qualquer outro assunto. “As mais belas palavras de amor, são ditas no silêncio de tímidos olhares”, dizia Leonardo da Vinci.

           Ficou a lição de Francisco e a minha sugestão para alguns religiosos brasileiros que pensam que todo mundo é surdo e que gritando, babando, vociferando, discursos intimidadores e fundamentalistas, comportamentos duvidosos, hipócritas e preconceituosos, acreditando que só assim é que serão ouvidos ou respeitados. Para se fazer ouvir e ter credibilidade naquilo que é dito, não é preciso gritar e sim, argumentos, humildade e exemplo convincente. “Peço licença para entrar e transcorrer esta semana com vocês. Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo!", Papa Francisco.

        A aproximação da Igreja com as causas políticas, econômicas e sociais, tem caminhado na direção da Teologia da Libertação. A preocupação do novo pontífice com estas questões, buscando renovar a Igreja e prepará-la para os novos desafios e os novos tempos. Sensível e declaradamente insatisfeito com o abismo social no mundo, vê a necessidade de algo mais para os fíéis, do que tão somente fé, resignação e “blá, blá-blá”. É preciso despertar nos jovens uma visão crítica e transformadora da sociedade. Essa preocupação com o panorama do século XXI ficou claro quando o Papa disse: “Vocês, queridos jovens, possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam de corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram o seu próprio benefício. Também para vocês e para todas as pessoas repito: nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança. A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem ser vocês os primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem ao mal, mas a vencê-lo". Mais uma lição!

           Enquanto outros estampam fotos gigantes em fachada de templos, numa demonstração de total “simplicidade e humildade”! Um explícito culto à personalidade, promoção pessoal e projeção política aos moldes de regimes políticos de extrema, despóticos e sanguinários. Usando a “palavra de Deus” em detrimento de interesses pessoais e por vezes exclusos. Muitos lobos em pele de cordeiros fazem uso de seus púlpitos transformando-os em palanques, Igrejas em currais eleitorais e aos berros “cantam como os anjos e mentem como o diabo”, salvo, raríssimas exceções, obviamente. 

           Diante das análises e reflexões dos discursos religiosos e suas respectivas práticas no mundo atual, devemos nos lembrar de Mahatma Gandhi, “não tenho mensagem, minha mensagem é minha vida.” A importância de nos pautar, religiosos ou não, pelas ações e não pelas intenções. E é exatamente aí, que acredito que o Papa Francisco, deixou mais uma lição: “O futuro exige de nós uma visão humanista da economia e uma política que realize cada vez mais e melhor a participação das pessoas, evitando elitismos e erradicando a pobreza. Que ninguém fique privado do necessário, e que a todos sejam asseguradas dignidade, fraternidade e solidariedade: esta é a via a seguir". Amém!


         Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás, com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário Claretiano, Pós-Graduando em Docência do Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico, recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião e crônicas nos jornais Diário da Manhã e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e  4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.

Nenhum comentário:

Postar um comentário