domingo, 14 de fevereiro de 2016

NECESSIDADE OU COVARDIA

Como chuva fina no crepúsculo, molhando por insistência o chão sedento, cai em migalhas divididas ao meio, jogadas aos asnos como sobra dos ratos. Com requintes de compaixão quase “divina” e a piedade dispensada aos indigentes, o que a Casa Grande não comeu, a senzala se esbalda, num espetáculo degradante de esfomeados diplomados em grandes universidades, pós-graduados em miséria, na arte da renúncia ideológica, de joelhos diante do algoz e constrangidos pela necessidade.

É o que restou por merecimento e pelo valor dado a cada intelectual, poderosos e ameaçadores, ousados e subversivos pelas armas que empunham, o pensamento e a oratória! Embezerrados, como se estivessem no brete a caminho do matadouro, que os tornam menos que humanos, recursos humanos, coisas que o dinheiro paga quase nada!

A morte lenta faz do martírio, resistência. Mata-se a ideologia; o que restou da dignidade; do sangue; do suor e a luz do fim do túnel, que foi cortada por falta de pagamento. Ignorados pelo sistema que fomenta insistentemente a ignorância.

O relho é o reconhecimento do trabalho de cada um, o rubro suor, tem cheiro de sangue, que nas mãos do carrasco, como um grande alquimista, vira ouro, fortuna e lapida a honra e a moral impoluta de nobres cavalheiros.

Os colaboradores, são responsabilizados pelo fracasso que a incompetência gerou, socializam as desgraças e os “prejuízos”, parindo novos desgraçados! A mesa farta, os lucros e o sucesso, são privatizados, coroando a apropriação das aves de rapina. A glória dos grandes empreendedores e a pior espécie de seres da terra, os bajuladores, os jagunços e capitães do mato do século XXI. Que não é de hoje, que constroem seus nomes e patrimônios, nos ombros e no trabalho dos indispensáveis esqueléticos e famintos.

Um brinde ao farto banquete do proletariado, regado pelas migalhas do pão dos renegados, divididos ao meio, para que a senzala multiétnica se farta abundantemente, esbaldando com a caridade de quem os detestam!

No silêncio monástico da resignação, que a dignidade, resista além da covardia! Os parasitas se deleitem, com os esfomeados, que diariamente faz a diversão da diretoria, ruminando sua indignação, com um espetáculo patético de abnegação. Mãos incessantes e ávidas, gritos por justiça social, moral e humana. O desdém do opressor, numa demonstração odiosa e explícita de indiferença aos  invisíveis, que não são, embora sejam.

O podão que não corta cana, mas, poda sonhos, vidas! O doce da cana verte na terra, com um sabor amargo do chicote que macula a alma e fomenta a dor de uma elite intelectual, que continuam a mendigar um trabalho transformador, um salário respeitador e bem mais, que um pão dividido ao meio!


         Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás, com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário Claretiano, Pós-Graduando em Docência do Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico, recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião e crônicas nos jornais Diário da Manhã e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e  4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.

4 comentários:

  1. Isso sim eu diria que é uma breve análise - porém extremamente profunda, crítica, realista, revolucionária e sentimental - com relação a conjuntura que permeia os nobres proletários intelectualizados, os quais lutam por um mundo, mas fundamentalmente por seres humanos mais "evoluidos", mais conscientes da realidade a sua volta.
    Fica aí uma dura e ferrenha crítica aos "infelizes" donos do poder e aos seus fieis carniceiros colaboradores, infelizes os quais diariamente empobressem, ainda mais, suas "involuidas" almas com a burra ganância que gera apenas mais ignorância.
    Ótima analogia e um grande texto companheiro! Me senti representado! Viva la revolucion!!!

    Prof. Ms. Marco Aurélio

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