sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A DEMOCRACIA TUPINIQUIM E O VOTO OBRIGATÓRIO



        Um dos grandes paradoxos da conturbada política nacional, nos remete ao incansável debate sobre nossa democracia e a obrigatoriedade do voto. Um dos princípios elementares da democracia, consiste exatamente, entre outros aspectos, no exercício pleno da cidadania e o direito ao voto – uma conquista histórica - e não uma obrigação. O dever vem da consciência, a imposição da resistência. Sujeito a punição e penalidades legais por parte do Estado para quem não o faz. Se o poder emana do povo, o voto deveria ser necessariamente, livre e consciente, o que edifica a mudança e consolidada a liberdade e o Estado de direito.
        Esse importantíssimo ato político e expressão popular, pautado no exercício decorrente de plena consciência cívica e política do eleitor, convicto da grande responsabilidade e da importância do voto e, portanto, de votar. Um instrumento legítimo de transformação social e da penosa realidade moral brasileira, na incansável busca por mudanças, inclusão e justiça equânime. Platão afirmou que, “não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam”.
         A conquista do sufrágio universal foi o revide da sociedade amordaçada, opondo-se declaradamente contra os desmandos de eviternos tiranos no poder e no trato com a coisa pública; contra a opressão de déspotas históricos, perdulários e a convicção de que os sonhos quando sonhados juntos, tornam-se realidade! Que o suor, as lágrimas, o sangue vertido por chicotes cortantes e baionetas insanas, calaram ditaduras ferrenhas e sanguinárias. O incansável sonho de exercer o sagrado direito do voto livre e uma democracia sólida, foi um longo e árduo caminho nesta importante vitória, espinhosa e dolorosa.
         Desde os primórdios políticos do país, brasileiros abastados ou não, vem tentando de alguma forma, participar do processo e das decisões políticas, que é a base do funcionamento da nossa sociedade. Serem ouvidos, manifestarem-se livremente, impulsionados por um descontentamento latente. Disse o filósofo grego Aristóteles, “todo homem é um animal político” e Renato Russo em Sereníssima, “sou um animal sentimental”.
         Os primeiros passos na construção da democracia e do voto no Brasil, começaram ainda no Período Colonial (1530 – 1822) quando os moradores em 1532, votaram na eleição para a Câmara Municipal de São Vicente, primeira vila fundada pela colonização portuguesa. Até 1821 apenas eram permitido votar os homens livres – mesmo analfabetos -, voto aberto e apenas na esfera municipal. Ainda não existiam partidos políticos e as fraudes eleitorais eram comuns.
          No Período Imperial (1822 – 1889), veio a primeira Constituição do Brasil (1824), outorgada por D. Pedro I, centralizadora e autoritária. Conhecida popularmente como a “Constituição da Mandioca”, que estabelecia o voto censitário – só teria direito ao sufrágio quem possuísse determinada renda - e obviamente, os abastados. Neste caso, com no mínimo 150 alqueires de área plantada de mandioca. Sendo possível eleger indiretamente para a Câmara dos Deputados, Senado e Assembleias Provinciais, e diretamente para Câmaras Municipais e Juízes de Paz. Um processo eleitoral extremamente frágil, excludente, fraudulento – como o voto por procuração e título de eleitor falso -, violento e batizado como “eleições do cacete”.
        Em 15 de novembro de 1889 com a Proclamação da República, a família real foi deposta e o chefe do Executivo federal passou a ser escolhido entre a população. Com a Constituição de 1891 – a segunda do Brasil e a primeira da República -, foi adotado o presidencialismo como regime político e Prudente de Morais (1894 – 1898) foi eleito o primeiro presidente civil – seus antecessores os marechais Deodoro da Fonseca (1889 – 1891) e Floriano Peixoto (1891 – 1894), não haviam sido eleitos e eram militares. A possibilidade de exercer o direito de escolher o presidente foi indiscutivelmente um grande avanço. O que ainda era evidente e lamentável, que as decisões continuavam concentradas nas mãos de uma minoria, excluindo do direito ao voto, os menores de 21 anos, mulheres, analfabetos, mendigos, soldados rasos, indígenas e os clérigos.
         A principal característica do sistema eleitoral durante a República Velha, foi a vergonhosa manutenção dos privilégios e o chamado voto de cabresto. O coronelismo, outra característica marcante, típico da figura política nacional, escara de um país rural e provinciano, consolidou o modelo social e eleitoral excludente. Fazendo uso de seu poder econômico e da violência recorrente em seus “currais eleitorais” e elegiam-se o que melhor atendesse aos seus interesses. Domínio absoluto dos poderosos coronéis, chucros e fomentadores das fraudes eleitorais, como afirmou Victor Nunes Leal, “inventavam-se nomes, eram ressuscitados os mortos, ausentes compareciam” e muito mais do gênero.
         Com o fim da República Velha – “Revolução de 30” - e a chegada de Vargas ao poder, iniciou-se a chamada “Era Vargas” (1930 – 1945) e uma série de “mudanças” políticas, econômicas, sociais e eleitorais.  A criação do Código Eleitoral em 1932 e a conquista do voto feminino, o Tribunal Superior Eleitoral – TSE - e os Tribunais Regionais Eleitorais – TRE -, além da instituição do voto secreto, colocando fim ao constrangedor voto aberto e de cabresto. Com o golpe de Vargas nele mesmo e a implantação do Estado Novo em 1937, veio também a chamada “Constituição Polaca” com características fascistas e a tenra democracia brasileira e suas frágeis conquistas, malograram.
         Em 1945 com a deposição e a queda da ditadura varguista, deu-se início ao processo de redemocratização com a promulgação de uma nova Carta Constitucional dos Estados Unidos do Brasil em 1946 - Governo Dutra (1946 – 1951) -, consagrando as liberdades expressas na Constituição de 1934, que haviam sido retiradas em 1937, com a implantação do imoral Estado Novo.
         Nossa história está repleta de golpes obscenos e conspirações ardilosas, com status de vultos cívicos, com direito a datas comemorativas e feriados nacionais – Golpe da Maioridade, Proclamação da República, “Revolução de 30”,  Golpe Militar de 64 e o de Temer em 2016 - e os canalhas que insistem em comandar o país, macularam a democracia brasileira e o direito ao voto, mais uma vez. Diante dos ultrajantes Atos Institucionais, das baionetas, da truculência e sob ruidosos aplausos dos indigentes intelectuais de 1964. Mergulhando o país e os direitos dos cidadãos, numa noite sangrenta que duraria 21 anos.  
          A corrupção – que infelizmente nos é tão familiar e atual -, a violência, a censura que marcaram os “Anos de Chumbo”, foram uma afronta a razoabilidade, a inteligência, a ética, a liberdade e a democracia! Transfazendo necessidades sociais históricas e reprimidas, em negócios escusos e pessoais. “Prefiro cheiro de cavalo do que o cheiro de povo”, afirmou o General João Figueiredo (1979 – 1985), último presidente do regime covarde e opressor. O Estado e o uso da máquina pública, financiando – o “pão e circo” - a imoralidade política, sob o manto da Segurança Nacional e da moralidade. A “noite” foi longa, fria e nas alcovas tramas sórdidas.
         O movimento popular, que mobilizou anseios e esperanças dos incansáveis brasileiros nas “Diretas Já”, em defesa da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) no. 5 de 2 de março de 1983, Dante de Oliveira, infelizmente, não foi aprovada no Congresso Nacional. Frustrando o sonho de muitos bravos cidadãos conscientes, de novamente, exercerem o nobre  direito de votarem para presidente. O que só aconteceria na eleição presidencial de 1989, direito novamente assegurado com a promulgação da Constituição Cidadã de 1988 e o sufrágio universal. O voto livre, secreto e estendido a todos maiores de 16 anos, entretanto, obrigatório.
           A obrigatoriedade do voto, além do paradoxo com a democracia, fomenta os piores eleitores e candidatos que existem, parvos e pessimistas. São perigosos e prejudiciais ao processo democrático. Se é um direito votar, deveria ser também o de não votar, democracia é isso. Esta imposição jurídica e eleitoral, fabrica eleitores apáticos, letárgicos, encabrestados pela indigência política e intelectual, que votam pela obrigação legal – se não, de alguma forma, serão punidos pelo Estado democrático e de direito - e não, pela consciência crítica e política. Contribuindo para a eleição de candidatos cada vez piores, porque quando se opta por não votar, mesmo sendo um direito, escancara-se as porteiras, para qualquer um chegar ao poder e governar em nome de todos!
            Entendo que quanto pior for o nível social e intelectual dos eleitores, piores também, será o nível dos representantes, como infelizmente tem sido recorrente. Portanto, democracia não é transformar corruptos em políticos, nem parvoíce em poder, acredito que isto tenha outro nome.
            Como cidadãos e eleitores conscientes,  temos o dever moral, o direito constitucional de termos acesso irrestrito as contas públicas, bem como, acompanhar o trabalho de nossos representantes, em todas as esferas e níveis. Dados oficiais comprovam os vultosos gastos públicos com Publicidade e Propaganda  e o quanto é possível unir o “útil ao agradável”. Os únicos funcionários – os governantes - que ganham e muitíssimo bem para administrarem e ainda precisam fazer propaganda do que fazem. Como se não fizessem mais que a obrigação. Será por quê? “Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”, Goebbels e para alguns eleitores que só votam porque é obrigatório, isso é um perigo! Voto é consciência e não castigo.
           Se o povo tem o governo que merece, o cenário político brasileiro é em parte, reflexo de seu povo e eleitores. O historiador Leandro Karnal, afirma que não existe governo ético em um país de pessoas desonestas ou vice-versa. Quanto maior for a permanência de certos indivíduos de moral e conduta duvidosa no poder, maiores serão os tombos e os rombos, as “cachoeiras” de escândalos lesivos a nação, os “Al Capones” infiltrados e tramando contra a democracia, os desvios, os desmandos de eternos coronéis e seus currais eleitorais. Que as próximas eleições, tragam-nos algo em que possamos confiar, convictos no poder transformador do voto, de mudanças, renovações e as transformações que os massacrados trabalhadores deste país merecem. A insistente sociedade brasileira, está como Tereza Batista em Jorge Amado, ”cansada de guerra”!
            O fim do voto obrigatório, emergirá um perfil de eleitor diferenciado. Politizado, consciente e otimista. Quanto mais esclarecido o eleitor, melhor será o nível dos candidatos. A obrigatoriedade do voto, juntamente com aqueles que preferem abrirem mão do direito, por também ser um direito constitucional que o assegure, é que acabam por darem carta branca a qualquer patife, cretino e inimigo do povo. Talvez boa parte destes adeptos, diante do colapso nacional e a catarse intelectual de alguns, aos zurros, nas redes sociais e nas ruas, clamam um déjà vu – ditadura militar - em uma explícita amnésia histórica!


Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás, com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário Claretiano, Pós-Graduando em Docência do Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico, recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião e crônicas nos jornais Diário da Manhã e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e  4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.



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