sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A LUTA DIÁRIA CONTRA A INJUSTIÇA E A ESTUPIDEZ


       Na rudeza da vida, a coragem do brasileiro probo e que labuta, faz de sua via crúcis um calvário diário. A resiliência dos mais aptos, que resignados carregam a escória improdutiva do país, sob o açoite da Casa Grande e da sanha do chicote dos ordinários.
       No clássico Os Sertões, o pré-modernista Euclides da Cunha, afirmou que “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” E ainda frente ao infindável ardor da luta desigual, peita o infortúnio com bravura e a persistência dos vencedores. Astutos por natureza, otimistas por religiosidade e o humor nato que dribla o óbito como em Ariano Suassuna.
       Em cada rincão um ataúde farto, largo, para ossos tão frágeis e tão escassa carne. Vivência que a inanição ceifou em searas de misérias, latifúndios de mendicância, tribunais de injustiças e banquetes de indiferenças. Um eviterno “Doer, que dói sempre. Só não dói depois de morto. Porque a vida toda é um doer”, afirmou Rachel de Queiroz. Como em Vidas Secas e os desafios da sobrevivência de Fabiano e sua prole, a cadela Baleia tratada como gente, dramaticamente descrita pelo sertanista e também modernista Graciliano Ramos.
       Terra as quais quem planta não tem direito a comer, quem paga não pode usufruir, quem trabalha vegeta sob olhares famintos e definha a míngua. A aridez e o sol escaldante, a metamorfose kafkiana da água que esculpiu argila, a aridez da caatinga e a beleza do Mandacaru em flor! Resistente como a Jurema que para não perder água, perde suas folhas durante as longas estiagens.
         A saga e o suplício de escanzelados retirantes, imortalizado nas obras do “menino de Brodowski” Cândido Portinari. As mazelas de um povo e suas dores em Morte vida Severina, na Ode de João Cabral de Mello Neto. Os tormentos da grande seca de 1915, Rachel de Queiroz em seu romance O Quinze, descreveu com mestria, que marcou sua infância e revelou a resistência do sertanejo. Aqui, na mais tenra idade, aprende-se a duras penas que “A lembrança só dói quando fresca. Depois de curtida é um consolo.”
        Ante ao senhor e seus capatazes, o rubro suor, vai procriando a fortuna de minorias, que negam até o pão a quem lhes sustentam, sob a égide da exploração da brutal luta de classes. As migalhas aos indigentes, o desprezo aos zumbis favelados, em “condomínios” de dálitis sob pontes e viadutos. Os quilombos de ontem, os mocambos e quartos de despejo de hoje! Um campo santo em cada canto, uma cova rosa ou vala comum, para quem lutou e morreu pela terra. “Viver é negócio muito perigoso...”, Grande Sertão: Veredas do genial Guimarães Rosa.
         Os odiosos e infames, que com armas e intolerância, zurram suas mensagens pelo mundo. Parindo uma legião de assassinos e néscios, que sob bandeiras da bestialidade, banalizando a violência, disseminando o ódio e contribuindo para o grande rebu nacional. O infortúnio dos indigentes que fomentam o Estado e vítimas da corrupção intrínseca, mendigando piedade e compaixão de quem os odeia. E no silêncio do eleitor, a certeza do também pré-modernista Lima Barreto, quando afirmou, “O Brasil não tem povo, tem público.” Que no grande e patético espetáculo circense que se reduziu a república das bananas, os aplausos da covardia, omissão e estupidez.
     O silêncio mordaz da indiferença e as injustiças sociais evisceram as mazelas do país e escancara vergonhosamente, a cumplicidade de quem deveria combatê-las.  Togas e pompas, justiceiros e omissão, a serviço de quem paga mais. Os poderes do Estado, harmônicos e letárgicos, cuidando do umbigo um do outro, numa ardilosa conspiração contra o povo! A Camorra governamental e delação premiada aos amantes inimigos do poder, que fazem do fisiologismo sustentação ideológicos, transformando o país em um salseiro.
         Sob o comando de roedores públicos, rebentos do randevu nacional, gente graúda de cafetão e beleguins nativos como prostitutas de luxo. Calígula, imperador romano (12 – 41) sentiria orgulho do quanto suas práticas políticas e administrativas, foram tão bem assimiladas por seus contemporâneos. Se seu equino de estimação Incitatus não se tornaria Cônsul – Brasil, como ocorreu na Roma antiga -, hoje vários “equinos” públicos, também. Inúmeros haras Brasil a fora, com nome de parlamento.
          Portanto, meu pessimismo na razão, reside no otimismo da ação; eleitor que exala informação e na hora do pleito falta formação; no silêncio sepulcral da justiça e no despertar da consciência social. Se o Brasil não é para amadores, realmente, não poderíamos estar em melhores mãos, ou patas com tornozeleira eletrônica!

Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás, com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário Claretiano, Pós-Graduando em Docência do Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico, recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião e crônicas nos jornais Diário da Manhã e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e  4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.

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