Independentemente de credo, religião ou convicções
teológicas, estamos vivendo dias indiscutivelmente, históricos e sombrios. Manifestações
e revelações que abalaram as estruturas do poder e demonstram o nível de
insatisfação dos brasileiros e a crise moral que desvela o xogum constrangedor de governantes incompetentes e corruptos. Bem como,
o marasmo das instituições, o partidarismo e a parcialidade escancarada do
Judiciário, com ministros que parecem mais garotos de recado, que juízes da
Suprema Corte do país. Um vergonhoso Legislativo, salvo raríssimas exceções,
criando manobras espúrias, fomentando um Executivo imoral e criminoso.
No panorama internacional, o avanço do
terrorismo e a intolerância, os discursos de ódio, o neonazismo, o
antissemitismo da extrema-direita na Europa – Alemanha, Holanda, França, Áustria,
Grécia, Hungria -, na América - Estados Unidos, Brasil; a extrema-esquerda na
América e suas ditaduras ferrenhas e sanguinárias – Cuba, Venezuela, Nicarágua;
no Egito o massacre de cristãos coptas pelo Estado Islâmico; a novela Edward Snowden, a espionagem
norte-americana e relações “promíscuas” da campanha de Donald Trump com o
serviço secreto russo; a instabilidade histórica no Oriente Médio; o silêncio
dos “bons” diante do genocídio na Síria que se arrasta desde 2011; a maior
crise humanitária do século XXI no Iêmen; Erdogan e seus superpoderes e o fétido
odor de indiferença no ar.
Entre ratos que proliferam por esgotos
mundo afora, ainda resta um fio de ética e esperança que nos mantém vivos e de
pé. A renúncia papal depois de 598 anos, quando o então Papa Gregório XII em 14l5, abdicou o
pontificado; resultou no conclave de março de 2013 na Capela Sistina e na escolha
histórica de um papa americano, argentino e jesuíta (Companhia de Jesus).
De cara, enfrentou o escândalo de
corrupção do VATILIX que tem sacudido
a Cúria Romana, com desvios de milhões de dólares do banco do Vaticano realizado
por religiosos dirigentes da instituição e o novo Papa, demonstrou estar
disposto a cortar na própria carne. JMJ na cidade do Rio de Janeiro; o
ostracismo de um papa impotente diante dos novos desafios da Igreja no século
XXI, agora emérito, recluso e silencioso, Bento
XVI.
O argentino de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio
foi eleito o 266º (ducentésimo sexagésimo sexto) representante máximo da Igreja Católica Apostólica
Romana, adotando o nome de Francisco,
uma alusão a São Francisco de Assis, frade italiano do século XII que teve uma
vida dedicada aos pobres. O novo sumo pontífice, foi o terceiro representante
máximo da Cúria a visitar o Brasil – o primeiro foi Karol Wojtyla, Papa João Paulo II (1980, 1991, 1997), o
segundo, Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI
(2007) - maior país católico do mundo.
A Jornada
Mundial da Juventude, realizada em julho de 2013 na cidade do Rio de
Janeiro, reuniu mais de dois milhões de jovens de todo mundo, segundo os
organizadores do evento. Foi um grande acontecimento religioso, marcado pela
fé, emoção e alegria de receber a ilustre visita do chefe de Estado do
Vaticano, menor país do mundo. A visita foi pastoral, o que não deixou também de
ser política.
Demonstrando uma vitalidade
admirável aos 80 anos, um sorriso contagiante, um discurso pacificador e
conciliador, ar de serenidade e sempre com um tom de voz quase inaudível, suave
e palavras cativantes, o Papa Francisco, trouxe uma mensagem de esperança para
muitos jovens desesperançados e descrentes com as perspectivas do nosso país, certo
alento. Disse: “Um jovem que não protesta
não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre
negativa. A utopia é respirar e olhar adiante”.
Com palavras simples e contundentes,
uma retórica crítica em relação ao luxo, a ostentação de religiosos e sempre
incisivo na necessidade de uma Igreja que busque se aproximar de seus fiéis. Do
discurso a prática, não ficou só na teoria. As lições de Francisco semeadas aos
jovens e ao mundo em Cuba (2015), na JMJ e a todos em geral que acompanharam
sua estada no Brasil (2013), na Polônia (2016), bem como no Egito (2017), revelaram-se
dignas, renovadoras e ventiladas de sinceridade, boas intenções e mudanças.
Quebrou protocolos de segurança, ao
recusar usar um papamóvel blindado para ver e estar em meio ao povo – o que nenhum político brasileiro ousaria,
não é mesmo? O “Papa Pop” que
optou pela simplicidade e pelo exemplo daquilo que prega. Demonstrou coragem e
desapego ao deslocar pela cidade do Rio de Janeiro em um carro popular, de
vidros abertos e cumprimentando as pessoas sem nenhum receio e com muita
simpatia; com seu tom de voz sempre solene e sereno, também deixou claro, que
não precisam esgoelar para ser ouvido e entendido – igual muitos por aí - para
falar de Deus ou de qualquer outro assunto. “Todas
as nossas palavras serão inúteis se não brotarem do fundo do coração. As
palavras que não dão luz aumentam a escuridão,” afirmou Madre Teresa de
Calcutá.
Mais uma lição de Francisco e minha sugestão
para alguns religiosos convictos que todo mundo é surdo e que gritando,
babando, vociferando seu proselitismo, discursos intimidadores e
fundamentalistas, comportamentos duvidosos, hipócritas e preconceituosos,
acreditando que só assim serão ouvidos ou respeitados. Para se fazer ouvir e
ter credibilidade naquilo que é dito, não é preciso gritar e sim, respeito,
humildade e exemplos convincentes. “Peço licença para entrar e transcorrer esta semana
com vocês. Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi
dado: Jesus Cristo" Papa Francisco.
A aproximação da Igreja com as questões
políticas, econômicas e o engajamento nas causas sociais, tem caminhado na direção
da Teologia da Libertação e de uma
Igreja mais humana. A preocupação do novo pontífice com estas questões,
buscando renovar a Igreja e prepará-la para os novos desafios e os novos
tempos. Sensível e declaradamente insatisfeito com o abismo social no mundo, vê
a necessidade de algo mais para os fiéis, do que tão somente fé, resignação e “blá,
blá, blá”. É preciso despertar nos jovens uma visão crítica e transformadora da
sociedade. Essa preocupação com o panorama do século XXI ficou claro quando o
Papa disse: “Vocês, queridos jovens, possuem uma
sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com
notícias que falam de corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum,
procuram o seu próprio benefício. Também para vocês e para todas as pessoas
repito: nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a
esperança. A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem ser vocês os
primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem ao mal, mas a vencê-lo". Mais uma lição!
Enquanto outros estampam fotos gigantes
em fachada de templos, numa demonstração de total “simplicidade e humildade”!
Um explícito culto à personalidade, promoção pessoal e projeção política aos
moldes de regimes políticos de extrema, despóticos e sanguinários. Usando a
“palavra de Deus” em detrimento de interesses pessoais e por vezes exclusos. Muitos
lobos em pele de cordeiros fazem uso de seus púlpitos transformando-os em
palanques, Igrejas em currais eleitorais e aos berros “cantam como os anjos e mentem como o diabo”, salvo, raríssimas
exceções, obviamente.
Diante das análises e reflexões dos
discursos religiosos e suas respectivas práticas no mundo atual, devemos nos
lembrar de Mahatma Gandhi, “não tenho
mensagem, minha mensagem é minha vida.” A importância de nos pautar, religiosos
ou não, pelas ações e não pelas intenções. E é exatamente aí, que acredito que
o Papa Francisco, deixou mais uma lição: “O
futuro exige de nós uma visão humanista da economia e uma política que realize
cada vez mais e melhor a participação das pessoas, evitando elitismos e
erradicando a pobreza. Que ninguém fique privado do necessário, e que a todos
sejam asseguradas dignidade, fraternidade e solidariedade: esta é a via a
seguir".
Derrubando tabus históricos e
colocando muita gente “santa” para pensar e tirar a máscara da hipocrisia. Como
se referiu na mensagem especial para a “mãe solteira” nos Estados Unidos em
2015, dizendo “ande de cabeça erguida”! Rever
valores e conceitos, compreender que muito mais que acreditar em Deus ou
professar qualquer credo, caráter sempre fará a diferença! Amém!
Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de
Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela
Universidade Federal de Goiás, com Habilitação
em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário
Claretiano, Pós-Graduando em Docência do
Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico,
recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião
e crônicas nos jornais Diário da Manhã
e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e
críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto
livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e
crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”,
poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os
séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e 4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o
quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor
do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.
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