UMA
REFLEXÃO DE NATAL
Então é Natal...
Vamos celebrar!
Um brinde à gula, às velas coloridas, a
bebedeira de muitos devotos, ao espetáculo pavoroso de irresponsabilidade e
violência nas festividades da festa cristã, às belíssimas canções natalinas, luzes
ornamentando a opulência de palácios financiados por quem não tem onde morar, o
que comer ou ao menos um palito de fósforo que fosse capaz de iluminar a
dignidade da miséria... Áreas nobres enfeitadas pela indigência das periferias...
A magia do glamour do verdadeiro
espírito natalino, perpetuando a cultura do universo fantasioso da fraternidade
e harmonia cristã, dos homens de bem com seus coldres reluzentes, na barganha
pela recompensa do paraíso eterno. Sugestivo, frente ao inferno terreno, vivido
diariamente por tantos, inclusive, no Natal!
Ingenuamente, acreditei um dia no Coelhinho da Páscoa, de olhinhos
vermelhos e orelhas grandes, que incondicionalmente trazia ovos deliciosos de
chocolates para todas as crianças. Inclusive, para as pobres, negras, anônimas,
cristãs ou não e que quase sempre, vivem penduradas nas encostas movediças do
abandono social e estatal!
Também acreditei que se eu fosse um
bom menino, numa espécie de permuta com o Todo-Poderoso,
eu seria recompensado com um belo presente de Natal. Eu seria merecedor, não
por ser criança, inocente, ingênua ou bom garoto, ganharia, pois acreditava que
todas igualmente ganhariam presentes, por ser Natal, independentemente de
merecer ou não. Como se o conto de Natal, fosse realmente como me disseram que
era!
Na imaculada da minha mais tenra
idade, também aprendi sobre um Cristo bem mais cristão que aquele que muitos
cristãos ostentação pregam agora.
O Natal dos indigentes – cristãos ou
não - dura o ano todo! O rubro do sangue derramado pela indiferença e o
abandono; as luzes brilhantes e coloridas, iluminadas pelo giroflex das
viaturas da polícia; os fogos de artifícios são as bombas de gás e os tiros do
Estado, que enfeitam e alegram nossa árvore gigantesca, o morro! Isso explica a
grande inspiração em Schubert, que iluminou Herivelton Martins em “Ave Maria no
Morro”!
Insistentemente passei a indagar-me:
__ Por que o Natal é sempre tão
iluminado, festivo e colorido se na rua que eu moro - mesmo pagando taxa de
iluminação pública - nem poste tem? Será esse o motivo que pelo qual Papai Noel
não visita os miseráveis das regiões periféricas? Será medo de assalto ou Natal
é para alguns agraciados pelo capital?
__ Ainda bem que as valas comuns da minha rua e o poder
paralelo na minha comunidade, permitem que o caminhão da coleta de lixo passe,
se não, meu Natal também seria no lixão, aquele que Papai Noel, muitos
políticos competentes e fervorosos religiosos, se quer sabem da “existência”
durante todo ano!
__ Por que Papai Noel não é negro e só
veste vermelho? A vida toda sempre ouvi dizer por alguns cristãos de “bem” que
o vermelho era odioso e uma ameaça! Papai Noel também? E aquele refrigerante
famoso, também?
__ E Papai Noel, existe?
Agora, o tempo roubou minha infância,
como a religião dos ladrões, charlatões, abusadores e hipócritas roubaram minha
fé! E com ela, minha inocência. Descobri que o Coelhinho da Páscoa e o Papai
Noel, estão para cultura cristã, como Saci Pererê e o Negrinho do
Pastoreio, estão para o folclore brasileiro, na mesma dimensão de importância e
realidade.
O mesmo “Boi da cara preta” que embalou meus traumas e temia encontrar na
infância, agora adulto e portador de todos os pecados e culpas do mundo, temo
ser mandado para o inferno, mesmo cercado por tantos demônios disfarçados de
anjos! Enfim, tanto na infância como agora, vivo amedrontado pelas mesmas e
cruéis ameaças de condenação, que os puritanos, patrulheiros da fé e da moral
alheia, candidatos a santos e as portas do paraíso, insistem em apontar o dedo.
Sob um constante terrorismo velado
imposto pela tradição religiosa e consumista, sob a sombra do êxtase da
burguesia, da farra das indulgências e simonia. O Natal como um bálsamo anual,
vem nos brindar com um discurso sacrossanto atrelado perniciosamente a um
capitalismo selvagem, cúmplices em interesses escusos de cada lado, selando um
pacto entre o sagrado e o profano, a serviço da ilusão e da mediocridade. Percebo
agora, que era preciso fomentar meus sonhos de criança, para fomentar a sanha
dos interesses econômicos, em nome de Deus.
E
“que o verdadeiro espírito de Natal esteja dentro de cada um de nós”.
Inclusive dos canalhas, larápios do erário público; dos sanguinários
homofóbicos; dos estúpidos racistas; dos covardes machistas que agridem,
violentam, estupram e assassinam mulheres; os ordinários molestadores de
crianças nas alcovas das sacristias; os patifes de direita ou esquerda que
dividem a mesma cela; os hipócritas que vão a igreja esfolar os joelhos numa sordidez
deslavada e que cinicamente, ainda se intitulam “santos”!
Um destino glorioso de presentes,
pompa e o desperdício dos banquetes...
Para outros, também “supostos” e
pretensos filhos de Deus, restam as migalhas que os ratos rejeitaram. O
infortúnio de miseráveis esqueléticos e famintos, invisíveis aos presentes de
cada dia e alheios aos banquetes natalinos!
O consumismo apropriou-se da festa “sagrada”
ou vice-versa. Comemoram com mimos e comilanças o nascimento de Cristo, que
segundo as Escrituras, nasceu em uma estrebaria, numa manjedoura, entre equinos
e bovinos, numa demonstração clássica de simplicidade e talvez, do que seria o verdadeiro
“espírito natalino”. Penso que Ele se
constrangeria hoje, com o nível das comemorações em alusão ao seu nascimento, com
muitas plumas e paetês, ostentação e oba-oba.
O Natal realmente é uma festa
interessante!
Controversas a parte, reza a tradição
cristã que o menino Jesus nasceu no dia 25 de dezembro. Numa região do
continente asiático, conhecido atualmente como Oriente Médio. Região de sol escaldante e grandes áreas desérticas,
entre mulas, ovelhas, cavalos e bois.
Muito diferente da Lapônia europeia,
que dizem viver o Papai Noel, o símbolo maior do Natal de um Cristo que nasceu
em um contexto simples e humilde, viveu e morreu lutando contra a hipocrisia,
as desigualdades e as injustiças.
Então qual seria de fato o verdadeiro sentido
cristão do Natal? E o Presépio? Cabe na festa?
Eternizado num momento, uma reprodução artística tão simples e majestosa,
ovelhas, jumentos, estábulo... Para um Natal excludente, profano, regado a bebedeira
e comércio! Lucro, exploração... Natal é para quem pode pagar! Seria então este
o verdadeiro significado do “espírito natalino”?
E os presentes? Ah, os presentes. Papai
Noel nunca falha.
Agora, se for criança pobre, quase
sempre não tem nem o que comer na Ceia de Natal, nem benesses! Confraternizam e
socializam-se com os ébrios e a indiferença social, o clima festivo lúgubre que
celebram todos os dias santos, divide o espetáculo com os indigentes, sentados
a grande mesa do abandono, fartando-se do banquete dos renegados, vivendo em
pele e osso, o verdadeiro espírito do Natal.
Que saudade da minha inocente infância!
Dos beijos e dos abraços de minha mãe! Quem aprendeu a viver como escravo tem
medo da liberdade!
E o que os “papagaios” repetem todo
ano, soam como unanimidade e dogma. Que neste Natal eu receba de presente menos
hipocrisia, menos indiferença, menos intolerância e atitudes, ações no lugar de
palavras e intenções!
Conclusão caí no “conto do vigário”!
Ah, nos “messias” mitológicos,
salvadores da Pátria, arautos da honestidade, baluartes da moral e da fé cristã
e ostentando seus coldres reluzentes, nesses eu nunca acreditei!
Marcos
Manoel Ferreira nasceu aos
23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás, com
Habilitação em História da Educação
Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário Claretiano, Pós-Graduando
em Docência do Ensino Superior.
Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico, recreador infantil e
palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião e crônicas nos
jornais Diário da Manhã e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e
críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto
livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e
crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”,
poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os
séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e 4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o
quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor
do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.
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