segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

TRADIÇÃO E FÉ

AO SOM DOS ATABAQUES

       Chegou a hora, ruas em festas, tambores, cuíca, caixa, reco-reco, pandeiro, cavaquinho, tarol, tamborim e a sanfona. O som da África, batuques, atabaques, grande alegria, ritmos e muitas cores. A música das senzalas coloca a Casa-Grande para dançar. O sincretismo e a dança marcada, salve, salve o Congo e Nossa Senhora do Rosário, Congada!
     Estudos apontam que a partir do século XVII em Pernambuco, escravos africanos vítimas do senhorio cristão europeu, foram trazidos pelos portugueses para o Brasil, em navios asfixiantes e em condições ultrajantes. Sob o tinir dos grilhões, desembarcaram e, com eles, além da dor do exílio, a saudade da terra mãe. Sua garra e suas raízes como armas de resistência e esperança. A identidade que os açoites e a senzala, que o racismo e a intolerância, não conseguiram silenciar ou apagar.
         A construção da grandeza dessa terra, inúmeras vezes marcada pelo sangue alheio, para saciar a sanha de latifúndios canavieiros, cafeeiros, numa supremacia branca, patriarcal e ordinária. O sal gotejado na terra fértil, irrigada pelo suor de bantus e sudaneses, fez a fortuna e a doçura da cana. Do açúcar alvo como a neve, que deixava mel o amargo café. Temperado pela vergonhosa escravidão dos renegados e a miséria dos ignorados!
        Pelas mãos e pés de guerreiros que por sua pele negra, resistentes como ébano, foram historicamente   inferiorizados e marginalizados, pela pseudociência da Eugenia, alicerçada na intolerância e no darwinismo social.
         É inegável o quanto somos um país miscigenado – índio americano, branco europeu, negro africano. Uma diversidade cultural e religiosa riquíssima, fruto do sincretismo e do ecletismo cultural-religioso. Que nos legou não só um povo multirracial, como também, o cristianismo e suas convicções, a grandeza das religiões de matriz africanas e suas tradições milenares. De  Xangô deus da justiça, do fogo, tanto quanto Tupã para os Tupis-guaranis.  O mesmo Atlântico que banha a Baía de todos os santos é as mesmas águas que banham a África e seus orixás.
        O segundo domingo de outubro é realizada a festa em louvor a Nossa Senhora do Rosário em Catalão. A beleza e a grandeza do sincretismo, com elementos de fé, o cristianismo e das raízes africanas, que permeiam nossa identidade cultural. Conhecida como  Congadas, congado ou congo,  realizada em algumas partes do Brasil,  consiste numa celebração,  expressão de agradecimento do povo congolês aos seus governantes, inspirada no Cortejo aos Reis Congos.   
        As festividades na cidade acontecem desde 1876,  revelando uma tradição de encher os olhos, um mergulho cultural e histórico, da vitória da resistência contra a opressão! Um espetáculo a céu aberto, numa grande e colorida festa popular e que indistintamente, abarca e abraça todos os credos, etnias e níveis sociais. Numa demonstração clara do quanto às diferenças, nos tornam tão iguais!
       Os ternos animam por onde passam o cortejo, com muita dança, batuque de zabumba, cantorias e alegria. Há uma hierarquia, onde se destaca o rei, a rainha, os generais, capitães, etc. O folclore e a religiosidade presentes na tradição, além das raízes do Congo, também de Angola, Moçambique e outras regiões da África.
         Portanto, deixo aqui, dois convites. Um, para visitar Catalão e suas Congadas. O outro, uma reflexão. O quanto muito nos enriquece, esta convivência com tamanha diversidade étnica, religiosa e cultural. Que nos coloca frente a frente, com questões desafiadoras, pautadas pelo respeito e a tolerância. Princípios elementares, básicos, grandiosos e determinantes para a construção de uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária.
      Querendo ou não, todos nós temos sangue negro! Alguns, nas mãos. A mesma que segurou o chicote e hoje ostenta o racismo e a intolerância!                      
          Axé!

Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás, com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário Claretiano, Pós-Graduando em Docência do Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico, recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião e crônicas nos jornais Diário da Manhã e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e  4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.

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