Longe do fervor do momento, num misto de
sensações, indignação e constrangimento frente à parvoíce triunfante que nos
cerca, eis uma reflexão. Recentemente lancei meu sexto livro. Consequência
natural de um grande amor pelos livros, pela leitura e o prazer em escrever –
ainda que um eterno aprendiz. Sempre acreditei que a educação, o conhecimento, a
leitura, são armas poderosas no combate às injustiças sociais, a maior e pior
de todas as mazelas, a ignorância!
Novamente, vivi de perto os
reflexos de uma realidade miserável intelectualmente, fomentando analfabetos
funcionais – “O verdadeiro analfabeto é
aquele que sabe ler, mas não lê” – afirmou Mário Quintana, e o hábito do menosprezo pela produção cultural
alheia. Uma lástima que sempre observei em todos os outros lançamentos. Se sempre
me lembrar do país que vivo, com o nível de governantes de índole e erudição duvidosa
dos que temos talvez isso não me causasse tanta estranheza. Mesmo acreditando que
um dia mudaremos esta condição de povo sub.
O lançamento de um livro, um filme, uma peça, uma vernissage remete-nos
ou deveria, a um grande evento, momento de êxtase, nascimento, sublimação,
carregado de novas ideias, propostas, críticas do cotidiano, dilemas e
reflexões diversas. É uma ideia sonhada, que germinou e resultou em uma obra de
arte, literária, cinematográfica, que direta e indiretamente, contribuirá para
o crescimento cultural de uma sociedade e o despertar de um contemporâneo olhar,
frente ao caos.
Tenho lamentavelmente observado, pessoas
supostamente “esclarecidas”, pseudointelectuais quase sempre conhecidas do
autor, chegarem e pedirem “um livro”! Isso quando comparecem ao evento, em
parte, nem vão, sentem-se desconfortáveis com o ambiente.
Muitos destes equivocados, para
não dizer outra coisa, pensam que os autores, os artistas, escrevem livros ou produzem arte, com a
finalidade de presentear amigos! Ainda que se possa fazer alguma doação –
acredito que isso também faça parte -, não é essa a princípio, a finalidade de uma produção
artística.
É preciso que fique claro que é o
ganho do artista, sua sobrevivência, fruto de seu trabalho intelectual. Penso
que Ariano Suassuna, Clarice Lispector, Drummond e tantos outros, nunca
escreveram pensando em fortuna, nem muito menos, para rifarem suas obras, como bons
samaritanos e saírem distribuindo suas produções a todos os pedintes. Spielberg,
Almodóvar, Fellini jamais produziram, dirigiram uma obra da Sétima Arte, com a
finalidade de não receberem por elas. São profissionais, vivem disso. Normal e
natural como em qualquer outra atividade profissional, ou deveria. O que
assusta e “surpreende”, é o comportamento insistente de algumas pessoas de
ignorarem o dispendioso trabalho artístico, artesanal e intelectual que é necessário
para se atingir um resultado final, como a publicação de um livro, um filme,
uma escultura, por exemplo, e alguém resumir sua produção em “me dar um”!
Será
que o dono de um táxi deveria transportar os amigos ou quem quer que seja de
graça? Um incansável empreendedor dono de um restaurante deveria fornecer
refeições na “faixa” aos amigos? Será que as pessoas que vão a um espetáculo –
show, teatro -, deveriam ganhar as entradas dos artistas e produtores? A
resposta é óbvia, por que as pessoas insistem em pensar que eu tenho que “dar”
meus livros? Que lógica é essa, que o escritor pensa e produz uma obra literária,
tempo, gastos financeiros com a produção, divulgação, e depois de tudo, ainda tem
quem pense que a obra – por mais “insignificante” que venha a ser - é de graça?
Inominável! Inveterada prática da indigência, da mendicância, sempre de boca
escancarada ou mãos estendidas pedindo, querendo “alguma coisa” de graça, ainda
que em migalhas! Ou incultura mesmo. Por um instante, sinto-me profundamente
constrangido e desanimado... Ainda assim, farei o que puder, para que os anônimos
cidadãos deste país, aqueles que só aparecem na mídia nas páginas policiais,
possam ter acesso à cultura de forma mais espontânea, naturalmente e com
qualidade. Sem por tanto, desrespeitar e desvalorizar o trabalho do artista. O
poder público tem um papel fundamental neste processo.
Frente a este desrespeito para com
os autores e artistas consagrados ou anônimos, fica minha reflexão. São
desafios diários e históricos de toda ordem possível. Não há investimentos que
contemple suficiente e verdadeiramente a todos que precisam de incentivos
voltados para a produção cultural; além das “panelinhas” de algumas “estrelas”
condenando ainda mais ao ostracismo os invisíveis. Práticas muito comuns em
alguns veículos de comunicação, que fecham as portas, ignoram quando o artista
é desconhecido e precisa de qualquer tipo de ajuda. Como a que vivi dentro de
um conceituado jornal que ironicamente sou colaborador com alguns artigos de
opinião, que se recusaram a divulgar o lançamento do meu último livro! Se a
intenção foi me desanimar, sou persistente e “é preferível morrer como rebelde a viver como escravo”, como afirmou
Sandino.
Este menosprezo pela literatura, pelos
livros, autores e artistas se revela nas pesquisas mais recentes. 44% da população
brasileira não leem e 30% nunca comprou um livro, aponta a pesquisa Retratos da
Leitura. Possivelmente eu esteja esperando muito de quem não está habituado ao
exercício da leitura e da busca por ser culto. Como afirmou José Martí, “ser culto para ser livre”. Está a chave
para um país com tanta riqueza fomentando tanta pobreza.
É preciso ser corajoso, ousado,
transgressor para ser culto neste país! O conhecimento é instrumento de poder
na transformação de uma sociedade e um alento no universo da opressão e da
magnânima estupidez.
Desabafos a parte, está na hora de
valorizarmos mais a leitura, a literatura, a arte, a produção artística de
forma geral, como um caminho alternativo, para mudarmos essa cultura da
incultura, da desonestidade, da corrupção, da desumanização crescente e
recorrente, diante de desafios cada vez maiores e humanos. Louvar o caráter e a
honra como valores insubstituíveis e necessários na construção de uma sociedade
mais ética, justa, próspera e culta.
Portanto, enquanto tivermos
pessoas que pensam que produção literária ou qualquer outra atividade
artística, intelectual é para serem distribuídas como santinhos em campanha
eleitoral, continuaremos “dando pérolas
aos porcos”.
Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de
Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela
Universidade Federal de Goiás, com Habilitação
em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário
Claretiano, Pós-Graduando em Docência do
Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico,
recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião
e crônicas nos jornais Diário da Manhã
e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e
críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto
livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e
crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”,
poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os
séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e 4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o
quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor
do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.
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