sábado, 1 de dezembro de 2018

“BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO”

E QUEM APERTA O GATILHO?

           Muita “gente boa”, “pessoas de bem” tem embarcado na voga da polarização de ideias, da dogmatização e das soluções radicais. Extremos e armadilhas tão perigosas quanto os traiçoeiros desertos, que arrastam para caminhos incertos e frágeis. Dias escaldantes, noites infindas e congelantes, exteriorizando sentimentos sombrios que alguns fomentam coletivamente, anônimos ou ilustres, oscilando entre a paranoia do discurso de ódio e a barbárie dos vingadores, com alcunha de justiceiros.
      O homem vem se transformado numa imensidão arenosa de humanos desérticos, ruidosamente defendendo ações de combate a violência, sólidas quanto seus castelos de areia. Ermo, solitário, órfão de afetividade, miragens e oásis, que mudam de direção como dunas ao vento. O mesmo que sopra e faz girar hélices poderosas geradoras de energia eólica, limpa e sempre renovada, o ar em movimento que exala a vida, deixando a deriva gatilhos astênicos e nervosos, tão assassinos, quanto os que os atormentam. É o grande paradoxo da humanidade, clamar por paz, propagando violência! “Cada pessoa é um abismo. Dá vertigem olhar para dentro delas”,  afirmou o pai da psicanálise.
       Eurus sopre benévolos ventos que desperte a consciência dos homens afáveis para a iminência de sermos um pouco mais humanos. Que Eirene nos contemple com a paz, ainda que temporária, como acreditavam os gregos em seu universo mitológico.
     Sentimentos reprimidos evidenciam e radicalizam em tempos nublados, com previsão de chuvas torrenciais e trovoadas intensas, que a meteorologia não ousaria prever onde cairá o próximo raio deste céu nada de brigadeiro. Desvelando em meio a tempestades, águas turvas, deslizamentos e inundações de discursos de intolerância, patenteando o desrespeito, projetando messias apocalípticos, clamando por heróis de festim, duvidosos e tão ameaçadores quanto os vilões. Segundo Shakespeare, “choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes”.
      Nossa crise moral, existencial fez emergir de nossos desertos abissais, um estúpido desejo por parte de alguns “beduínos”, abrirem mão da liberdade – ela exige responsabilidade - e da razão, numa entrega equivocada, de cegueira política coletiva à servidão voluntária. Areias abrasadoras a luz do dia, desenham ilusões no horizonte, ameaçam a democracia, num mergulho insano nas profundezas do incerto, gélido e a escuridão da ignorância, que evidencia o ultraje da ditadura, que transforma déspotas em paladinos nacionais. “Em nome de interesses pessoais, muitos abdicam do pensamento crítico, engolem abusos e sorriem para quem desprezam. Abdicar de pensar também é crime” afirmou Hannah Arendt.
        O processo de desertificação tem revelado um Saara dantesco e ameaçador, frente ao acirramento de discursos dogmáticos e proselitistas, negando veementemente o contraditório. Ignorando campos férteis de possibilidades, farta seara de ideias e alocução de paz, tolerância e esperança, numa tentativa pacífica de união e não de cisão. Como dizia o profeta popular Gentileza, José Datrino, “gentileza gera gentileza”!
         Diante deste cenário macabro, de pânico e histeria da nação – que historicamente não é exclusividade do século XXI – e do mundo, temos assistido estupefatos, a procela em seu furor e a bestialidade contagiante. Conflitos étnicos sangrentos, políticos e religiosos estúpidos, terrorismo físico, psicológico, velado, guerras civis e urbanas intermináveis. A corrupção ordinária que não apenas usurpa e dilapida o erário público, mas, constrange, mata sonhos, ceifa vidas, prolonga a agonia nos leitos de hospitais públicos e nas periferias dos grandes centros. Precariza a educação, fomenta o analfabetismo e condena o povo a mendicância, indigência e exclusão! Sementes que germinam em solo fértil de injustiças, lavoura farta de intransigência e vociferação de ódio, bem como a irradiação da violência, em terreno movediço em um abraço de afogados. E a paz que buscamos, sepultada no seio da violência, que muitos, preferem alimentá-la. É o preço que os trabalhadores honestos deste país bancam, para manter um parlamento imoral, que tenta impedir, blindar de todas as formas, que o “poderoso chefão” da nação, seja investigado por denúncias do MPF.
      Muitos cidadãos de bem, embebidos pela injustiça, a imoralidade política, entorpecidos pela dor da indignação e violência, encontram neste contexto de abandono do Estado incompetente e uma sociedade maculada pelos extremos, “justificativas” para cometerem sandices em “nome” do que a lei nem sempre nos garante ou assegura, nem com o mínimo a que se propõe ou deveria a magnânima Constituição. Parte dos legítimos representantes do povo, chafurdados no fétido pântano do fisiologismo e a parcialidade da justiça,  em um país que uns compram voto, advogados e outros juízes!
      Diante do colapso social, político e ético, expõe-se o abscesso putrefato de uma sociedade miserável e doente. Feridas expostas e os fuzis justiceiros apontados para os “bandidos bons” e no gatilho, “Honoráveis Bandidos”, uns de toga ou farda, outros de ternos e bravatas, gravatas, livros sagrados nas mãos como espadas afiadas, prontas para a decapitação e a execração pública em nome de Deus. Sob ruidosos aplausos de uma plateia que sangra e clama por sangue, buscando saciar a sanha do que entendem por justiça. Anônimos patéticos e miseráveis sob todos os aspectos, disfarçados de religiosos, resguardados pela hipocrisia e covardia – salvo raríssimas exceções! Percebo que muita gente boa se vê no outro, despertando exatamente o que na verdade são. O ímpeto e o desejo de matar, extravasar este “senso de justiça”, torna-se uma erupção de fúria, maldade e selvageria.
        O “bordão” da moda “bandido bom é bandido morto” é um escárnio de um povo perturbado, melancólico e  combalido. Em uma espécie de efeito cascata, a força desse discurso agressivo e temerário, ganha espaço, principalmente entre jovens e as camadas sociais mais desprovidas. Exatamente, as maiores vítimas do abandono e da violência. Disseminando hostilidade e abrindo um precedente ilegal e perigoso para quem busca uma “solução” para as tragédias nacionais, com mais hostilidade e argumentos inflamáveis. Uma enxurrada de sangue, selvageria, humanos racionais e de “bem” cada vez mais desumanizados e hediondos.
        O panorama nacional é indiscutivelmente preocupante. Sem “carta branca” para eliminar - pobres na sua maioria -, que já são trucidados diariamente por inanição, balas perdidas – que quase sempre encontra um miserável -, asfixiado pela insaciável carga tributária, soterrados por avalanches em morros, imagine com o aval do Estado, de Deus, dos homens bons, trabalhadores, religiosos e honestos? Mesmo sendo uma bandeira levantada e defendida por muitos, o perfil dos linchadores, dos bravos assassinos de bem de plantão, são quase exatamente o mesmo dos que são linchados. O general João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979 – 1985), último presidente do período militar (1964 – 1985), afirmou que “a solução pras favelas é jogar uma bomba atômica”. Será também esta a solução pretendida pelos defensores do “bandido bom é bandido morto” para solucionarem a questão da violência? Não sobrará nem os algozes. Apenas os bandidos grisalhos e com foro privilegiado! É óbvio que “alguém” financia e lucra com esse discurso de ira. Isso não é apenas indignação. Armar a população e fazer do país um “bang-bang” – maior do que já é -, capta votos, eleições, poder, seguidores, alavancando interesses e traidores!
        Um paradoxo interessante neste processo é que o Brasil está entre os maiores países cristão do mundo, com aproximadamente 175 milhões de adeptos declarados segundo dados do IBGE. Religiosos ou ateus, o amor ao próximo, à filantropia, o altruísmo positivista, deveriam ser incondicionais. O perdão, a benevolência, a paz, a justiça equânime, princípios religiosos e filosóficos básicos, estão em xeque ou na corda bamba. Sob olhares raivosos dos fundamentalistas cada vez mais eloquentes, o mortal abraço de tamanduá,  envolvendo nas teias da loucura “cidadãos de bem”, potencializando instintos assassinos, genocidas e um avassalador desejo de vingança, quebrando o teto de vidro de muitos homens honrados. Quem nunca errou que atire a primeira pedra.
         É necessário coragem e clareza quanto ao enfrentamento efetivo da violência. O debate transparente entre as instituições do Estado e sociedade civil,  as incansáveis reflexões filosóficas, históricas, sociológicas, antropológicas, para melhor compreensão e direcionamento no combate das circunstâncias estimuladoras da violência. Descartes afirmou que “não existem métodos fáceis para resolver problemas difíceis”. Sem identificar os elementos causadores, as qualificadoras da violência é pouco provável e ingênuo, que encontraremos uma solução inteligente, legal, eficiente e no mínimo razoável para esta alarmante e preocupante questão, como querem alguns. Em um olhar histórico, racional e crítico, nossas mazelas se explicam. Ignorá-las, seria equivocar-se pela segunda vez!
        Os resquícios culturais do coronelismo, ares provincianos e arcaicos, sob a égide da “lei da bala” é o legado de um processo colonizador impiedoso, racista e excludente. Semeado desde os primórdios, em nome do progresso metropolitano e dos interesses econômicos europeus, bem antes de qualquer partido político ou governos instituídos neste país. Só estamos colhendo a lavoura maldita, nefasta e infecta de roedores engravatados, traidores do povo, fungos da ferrugem do caráter e da moral nacional de ilibados legisladores e julgadores leais, da podridão de frutos aparentemente saudáveis, até a próxima eleição ou operação policial, para “estancar a sangria” do que todos os dias, escancaradamente são espoliados do povo.
        Portanto, insistir em ignorar nosso processo histórico de invasão, ocupação, colonização e exploração, que saquearam nossas riquezas, abençoado pela Santa e Madre Igreja e sob a ganância do Estado, seria um grande equívoco e explícita demonstração de parvoíce. O aviltante racismo em um país miscigenado, alicerçado na mão de obra negra e indígena; o vexatório analfabetismo; o infortúnio na saúde pública; a incompetência estatal que alavanca o desemprego, atravancando as mínimas possibilidades de ascensão. A insistente ausência de políticas públicas inclusivas, voltadas principalmente para as periferias; programas sérios e responsáveis de moradias que possam mitigar o sofrimento de “cidadãos” que não aparecem nas estatísticas do governo, amontoados em barracos, pendurados nos morros do descaso. A falta de assistência às crianças, jovens, mulheres, negros e outras minorias desassistidas e marginalizadas pela sociedade e pelo Estado omisso; a  desestruturação familiar; o grande desafio no enfrentamento da dependência química –  como caso de saúde pública –  e o dantesco abismo social vergonhoso que nos macula, precisam ser considerados, antes da sentença de morte, dada pelos nobres juízes dos tribunais dos justiceiros de plantão!
      A solução nas mentes perturbadas, covardes, dos adeptos de linchamentos, quase sempre de anônimos, indigentes, negros, “pés de chinelo” e “ladrões de galinha”. Interessante, que nunca vi noticiando linchamento ou tatuarem na testa de bandidos ricos - empreiteiros, empresários, banqueiros, doleiros, altos executivos de empresas privadas ou públicas, políticos sentenciados oficialmente, os legítimos honoráveis bandidos - brancos, famosos, “colarinho branco” e quase sempre de ternos e gravatas. Ou seja, nessa perspectiva dos justiceiros, dentro dessa “lógica” do “bandido bom é bandido morto”, existe uma segregação  entre os bandidos que devem ou não morrer?  O equívoco é tão gritante nesses argumentos, que pobres se unem para linchar seus pares e protegerem os mesmos bandidos, só que ricos. Inclusive em alguns casos, sob a proteção da justiça institucionalizada e estatal!
       A redenção da turba desiludida com sangue nos olhos e Deus no coração rezam e numa espécie de marcha fúnebre, buscam vingança e não justiça! A descrença na vida, no homem, a indigência de princípios éticos, morais, filosóficos e nas instituições públicas,  criam um estado de caos e bestial, se igualando aos que condenam e executam. O modismo do discurso de ódio e intolerância, moldando indivíduos chucros e prepotentes. Sob o escudo de verdades absolutas, ignoram a lei e aos berros, propagam ainda mais ódio e  força bruta. A violência jamais poderá ser entendida apenas pela perspectiva de Segurança Pública. É preciso compreender questões que a antecedem e que geram os resultados.
     Portanto, sem combater paralelamente as causas fundamentais, geradoras dos inúmeros distúrbios sociais, destacadamente a violência em todos os seus níveis e formas, continuaremos enxugando gelo e na direção errada. Muito mais que a eficiência das forças policiais e todo seu aparato militar – homens e armas -; armar a população e fazer justiça com as próprias mãos; é preciso que o Estado e a sociedade civil, entendam que todos os problemas sociais que são ignorados, voltarão contra todos! É preciso de ações, políticas públicas definitivas a – curto, médio e longo prazo - e não medidas paliativas ou eleitoreiras. Atividades voltadas para geração de cidadania, dignidade, respeito, oportunidades de se construir pessoas melhores e uma sociedade mais justa e menos violenta. Educação, arte, esporte, lazer, moradia, saúde, trabalho, justiça, são as chaves para combatermos nossas mazelas.
     Sem políticas sérias, responsáveis, voltadas principalmente para crianças e jovens, com investimento maciço, acreditando na capacidade de cada um e respeitando o cidadão, por exemplo, jamais conseguiremos extirpar  esta doença maligna. Somente punir o delinquente, penalizar o criminoso, reduzir a maioridade penal, presídios sucateados e superlotados – o que para muitos é assim que tem que ser -, verdadeiros depósitos de “lixos humanos e da escória” da sociedade, não chegaremos a lugar algum. As ações deverão ser sempre conjuntas, políticas públicas preventivas e de combate, porque se um governo infame não investe em educação, no futuro das crianças e na construção de escolas, estará fadado ao fracasso – nossa experiência histórica demonstra isso – e construirá presídios e punirá um número cada vez maior de adultos.
          É preciso sim combater a violência com eficiência, legalidade e com isonomia, sem, portanto, ignorar as condicionantes que geram todo esse caos. Em um país que quanto maior é a miséria, a desigualdade e a fome, o Estado oferece menos pão e mais circo. Não se devem ignorar os resultados deste abandono histórico. Querem matar em nome da ordem e da solução de problemas enraizados, então, entre na fila dos condenados e continue a aplaudir de pé os ordinários e déspotas.
        O tilintar histórico das correntes opressoras, unem a resistência  à coragem, os grilhões que nos prendem, serão asas da liberdade. Ainda que aprisionem ou escravizem meu corpo, violem meus direitos, jamais, meus sonhos. Podem até calarem minha voz, não meus desejos e minhas aspirações! Já dizia Bertrand Russell, “o problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas”.

Marcos Manoel Ferreira nasceu aos 23 dias de abril de 1968, na cidade de Goiânia, Goiás. Pedagogo, pela Universidade Federal de Goiás, com Habilitação em História da Educação Brasileira; Historiador, pelo Centro Universitário Claretiano, Pós-Graduando em Docência do Ensino Superior. Professor, poeta, escritor, coordenador pedagógico, recreador infantil e palhaço voluntário de hospital. Escreve artigos de opinião e crônicas nos jornais Diário da Manhã e Jornal Opinião Goiás. “FLORES E ODORES”, poesias líricas, políticas e críticas, publicado em 2017 (1ª. Edição), 2018 (2ª. Edição) foi seu sexto livro. O primeiro “DESPERTAR”, poesias diversas, 1999; o segundo, “FRAGMENTOS”, artigos de opinião e crônicas, publicados em alguns jornais da capital, 2011; o terceiro, “ELZA”, poesias líricas, 2013; o quarto, “O MUNDO EM FOCO” – Um breve olhar sobre os séculos XX e XXI, atualidades, didático, 2013 1ª. e 2ª. edições; 2014 3ª. e  4ª. edições; sendo a 5ª. edição em 2015 e o quinto, “HONORÁVEIS CANALHAS”, poesias políticas, críticas, em 2015. Vencedor do 2º. Concurso Literário Deriva, 2018.

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